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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Giorn - Parte I – O cativeiro

Era um local deserto, bem afastado de alguma cidade ou sinal de civilização. Daquele ponto, quem olhasse para os dois lados da praia, só veria areia, árvores e mar, sob um luar limpo e pleno. Destroços de um navio iam e vinham arrastados pelas ondas. Nada que pudesse ser aproveitado. Giorn, porém, não podia notar o vai-e-vem das ondas no momento, nem os destroços, nem as árvores ou a lua. A água batia em seu corpo caído na areia em intervalos irregulares, mas ele também não a sentia. Estava desmaiado e assim permaneceu um bocado de tempo, mesmo após o sol surgir no horizonte, e só mais tarde deu sinal de vida. Lentamente começou a despertar e, com as costas queimadas num sol quase vespertino, vislumbrou a praia onde se encontrava. Praguejou. A areia era tão clara que chegava a ferir seus olhos. Tentou se levantar para analisar melhor sua situação, mas alguma coisa o impediu de fazê-lo. Uma sombra projetada na areia fez com que olhasse para cima, pois se tratava de uma sombra humana e disso ele não tinha dúvidas, por mais atordoado que pudesse estar.
Um rosto barbudo, sorridente e banguelo foi o que encontraram os olhos de Giorn.
— Merda! Quem... — Foi tudo o que Giorn conseguiu dizer.
Com um golpe de porrete, o infeliz náufrago voltou a ficar desacordado.

Sentindo lama sob suas costas, ele acordou de novo. Aquele barro gelado era um alento temporário às queimaduras de sua pele. Tendo novamente o controle de seu raciocínio, tocou a testa onde doía e notou um pouco de sangue ainda saindo do local da pancada. Olhou ao redor e, numa primeira análise, se viu em algum tipo de jaula rudimentar. Era uma prisão feita de troncos de bambu, entrelaçados por cipó e corda. Rudimentar, mas bem construída e suficientemente resistente para evitar a fuga de um prisioneiro sem uma faca ou qualquer objeto cortante. O chão do cativeiro estava praticamente inundado e, a julgar pelas gotas de água caindo das folhas das árvores, parecia ter chovido muito e há pouco tempo.
Plop! Um barulho na lama fez Giorn se virar. Um amontoado de minhocas agora se encontrava ali, diante dele, dançando sobre o chão de terra da jaula. Elas se contorciam e se espalhavam por toda parte. Pequenas como eram, podiam transpor com facilidade as frestas da jaula, algo muito invejado por Giorn naquele exato momento.
— Não deixe que escapem! — ressoou uma voz rouca escondida atrás das árvores.
Giorn tentou descobrir de onde vinha a voz, mas sem sucesso.
— Olha só. Elas tão indo embora. Só te servirei mais amanhã!
Um asco imediato tomou conta de Giorn. “Te servirei mais”? Que diabos de história era aquela? Será que queriam obrigá-lo a comer as malditas minhocas? Por um longo tempo, Giorn gritou, espancando as grossas grades de bambu, enquanto as criaturinhas rastejantes escapavam pelos vãos da jaula. Não obtendo mais resposta para seus gritos e golpes, Giorn foi sentar-se em um canto da prisão.
Por três dias jogaram vermes em sua jaula, aconselhando-o a comer, dizendo não haver na ilha mais nada além daquilo. “Ilha”. Foi a palavra gravada na mente do náufrago aprisionado e a qual ele fez questão de não esquecer. No quarto dia bebendo água suja, que escorria pela parede de terra do fundo da cela, ele cedeu, se viu obrigado a ingerir as minhocas e outros vermes jogados por quem ele acreditava ser o homem barbudo que o golpeara na praia. Se não comesse, pereceria sem energias e não teria como pôr em prática o plano que se formava em sua cabeça.
O náufrago passou oito dias trancado, sendo alimentado com o que o suposto barbudo encontrasse na floresta. Com sorte, chegava uma ratazana morta para a refeição. Certa noite, Giorn foi acordado por uma luz que inundava a cela. A voz do seu captor vinha de trás daquele facho de luz. Sim, era ele. Finalmente conseguiu distinguir a silhueta do homem de barba longa apesar do facho luminoso direto em seus olhos. Parecia carregar uma besta de mão. Também pôde distinguir um segundo sujeito, coberto com um capuz. Conversavam sobre preço e a mercadoria, indubitavelmente, era ele. Ouviu toda a conversa, desde a barganha até o trabalho para o qual ele seria comprado. Era um comércio de escravos e, se o barbudo negociava Giorn, isso indicava haver no local mais cativos como ele. Quando a luz se foi, Giorn pôs-se a fazer o que havia começado na madrugada anterior. Escolheu a madrugada por ser um período do dia, imaginava ele, em que não seria incomodado.
Cavou a noite toda, até amanhecer. Como o chão era mole de lama, por causa da água da chuva, o volume não fazia muita diferença aos olhos do carcereiro, incapaz de ter uma noção de que o chão no fundo da cela subia a cada dia, a não ser que entrasse lá. Coisa que ele certamente não faria e isso trazia certo conforto ao cativo. Sem falar que o buraco sob as grades era escondido pelo volume de água suja que vertia do barranco em volta da cela quando chovia. Naquela região, em alto mar, era quase certo chover ao menos duas ou três vezes na semana, sendo assim, a jaula de Giorn vivia com água em um dos cantos, facilitando o disfarce, e, naquela madrugada, após ter cavado mais um cansativo volume de barro, ele conseguiu escapar do cárcere.
Não se resignando a fugir pela floresta densa, quis a vingança. Giorn era um pirata, vingança corria no seu sangue e ele iria atrás do homem que o trancou e o alimentou com vermes: o barbudo banguelo e sorridente, que o negociara com o encapuzado. Sem contar que, de um modo prático, não imaginava como poderia sair da ilha se o homem soubesse de sua fuga noturna, portanto, devia matá-lo. O náufrago caminhou através dos arbustos, procurando alguma coisa com que pudesse bater em quem se aproximasse; uma vara, galho de árvore, ou outra coisa de fácil manuseio. Depois de tanto tempo encarcerado, a lua havia desaparecido e estava difícil seguir por entre as árvores apenas com a tímida claridade das estrelas, quase coberta por nuvens trovejantes vindas do horizonte. Há alguns metros de onde estivera preso, Giorn caiu, escorregando para dentro de outro barranco, até um pouco semelhante ao que comportava sua jaula. Era outra cela de bambu.
Conseguiu ver ali dentro outro homem, mas fez de tudo para não acordá-lo, temendo que o prisioneiro gritasse em alerta aos seqüestradores, talvez por uma oportunidade de se dar bem ou algo assim. Mas não conseguiu manter silêncio por muito tempo. O estranho falou com ele ao acordar com o barulho do escorregão.
— Não precisa se assustar — comentou ele, murmurando. — a cabana daquele maldito fica longe.
— Como sabe que não sou um deles? — perguntou Giorn.
— Porque estou aqui há tempo o suficiente para saber que o homem da barba trabalha sozinho. E que só vem aqui o comprador de escravos, mas nunca desse jeito que você apareceu, escorregando pelo barranco. Então posso concluir que você era um cativo e escapou. E agora vai me ajudar a sair daqui.
— Preciso ir atrás do maldito que me prendeu aqui!
— E o que você pretende fazer quando o encontrar?
— Pelos diabos, vou matá-lo!
— Então me solte e eu te ajudo.
— Cave, homem! — Aconselhou Giorn, apontando para um canto da cela. — Cave perto da água, formando uma poça, ele não vai perceber vendo de fora da jaula. Depois eu volto para te ajudar, preciso achar uma arma. 

Giorn saiu, ouvindo atrás de si o homem iniciando sua empreitada de liberdade. Ele até poderia ajudar a cavar, mas não queria ficar ali e ser surpreendido. Rastejou para todos os lados daquele matagal, procurando um local onde pudesse haver água e comida, como um alçapão, talvez. Se a cabana do sujeito não era tão perto, então ele devia ter um pequeno esconderijo de mantimento. O pirata precisou tatear por muito tempo em uma trilha na mata, mas encontrou o que queria. Sob as raízes de uma árvore gigantesca e velha, o barbudo guardava uma garrafa de rum e também a besta de mão. Um sorriso confortante atravessou seus lábios. Havia somente duas setas no estojo, mas para ele era mais que suficiente, era perfeito. O jogo havia mudado. Tomou o rum e voltou para procurar a jaula do outro prisioneiro. Começou a chover durante a noite, e Giorn pensou que aquilo só podia melhorar as chances do seu novo companheiro. A floresta cessou seu barulho noturno e deu lugar ao barulho da água caindo sobre as folhas e a terra. A água caiu torrencialmente durante pouco tempo. O próximo passo eram os mosquitos, vampiros da noite que se levantam à procura de sangue quando finda uma chuva. Ainda havia trabalho a fazer, se quisesse preparar uma emboscada. Bebeu mais um gole e sorriu novamente, praguejando e se pondo a andar em seguida. A garrafa estava bastante cheia, e isso o deixava ainda mais animado com a reviravolta na sorte.
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Um comentário:

Otavio disse...

Muito legal seu blog, vou passarmais vezes agora.....

dá uma passada no meu
http://otaviomsilva.blogspot.com/
e/ou nesse q participo
http://mundo-leitor.blogspot.com/

Forte abraço.

Ps: muito legal esse conto.... vou voltar pra ver o resto.

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