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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Noites no gelo - Parte 3 - Escapando?

Voltara a nevar, mas com pouca intensidade, e o jovem largado ao próprio destino tentava manter vivo o amigo próximo à fogueira. E agora? Ficar ali e esperar o socorro que o velho tinha ido buscar, ou tentar o retorno pelo mesmo caminho, com o amigo apoiado nos ombros? Já ia escurecer e permanecer mais uma noite no mesmo lugar não era exatamente uma atitude segura e a neve caindo logo prejudicaria o rendimento da fogueira. Ainda que com muitas dores na barriga, a recuperação do ânimo por parte do homem ferido dava uma nova esperança aos dois. Podiam partir, se quisessem, mesmo indo devagar. Como o ferimento não era incapacitador, eles decidiram voltar ao encontro do terceiro integrante do grupo.

O final de tarde ia deixando o lugar para trás, forçando os viajantes a retornar pela trilha ao posto de repouso, a estalagem na beira da estrada. Mesmo sendo castigados por ventania e neve rala, a viagem de volta era imprescindível.

Apagando a fogueira, mas mantendo uma tocha acesa, eles partiram pelo caminho por onde vieram, cortando a neve que congelava os ossos nas pernas. O novato ia carregando, conforme conseguia, seu amigo nos ombros e, mesmo ele sendo grande e pesado, era preciso continuar suportando seu peso para terem alguma chance de escapar com vida. Demorariam muito para percorrer um espaço de meia légua, mas se entregar depois de tantos obstáculos superados, estava fora de questão. Determinação e medo falavam mais alto.

— Atento... — murmurava o homem semiconsciente. — Sombras... Neve.

Mas o jovem nada via nas encostas da montanha. Por mais que quisesse, ficando parado por uns instantes a observar, não enxergava movimentação de manchas escuras nem brilhos vermelhos na imensidão branca. Considerou que o mais importante era continuar e, de qualquer modo, seu amigo podia estar delirando. Arrastaram-se por mais de duas horas, deixando para trás duas linhas sulcadas na neve, indicando o destino dos viajantes desprotegidos.

Alguns sussurros foram ouvidos atrás dos dois e o mais jovem, tão rápido quanto pôde, virou-se para checar se eram seguidos por aquelas coisas. Aparentemente, só o vento silvando cruzava aquele corredor branco. Mesmo não tendo constatado presença alguma, o jovem decidiu que era melhor irem mais rápido. Alertou o amigo para a situação.

— Temos que correr. — disse o rapaz para o amigo ainda meio atordoado.

— Vamos — respondeu o homem. — Vou tentar, é preciso.

Reunindo as últimas forças que restavam, o mais velho pôs-se a correr, com as mãos tapando o ferimento, seguido pelo novato carregando a tocha, que não queria se adiantar e deixar o outro muito para trás. Caso ele caísse, o rapaz não teria como saber a uma distância longa. E o motivo dessa preocupação se materializou. O homem ferido caiu, esgotado, depois de poucos segundos correndo. Desesperado, o jovem não sabia o que fazer, quando percebeu estar cercado de sussurros por todos os lados e, apurando melhor a visão da área, notou leves brilhos vermelhos se destacando atrás de árvores velhas cobertas de neve, ou em fendas no gelo, nas encostas da montanha. E eles se moviam.

Certamente eram os Vultos que iam na direção deles, deixando à mostra suas formas escuras como uma fumaça preta, mesclados a sombras no ambiente. Eram muito rápidos e, em instantes, um pequeno grupo se formava ao redor do jovem desesperado e seu companheiro desmaiado. Recorrendo a um último lampejo de razão, o rapaz teve a imediata reação de buscar em seu bolso a pedra protetora, para afastar as criaturas e poder arrastar seu colega para um esconderijo, caso achasse um ali perto. Mas nada encontrou em seu bolso, nem em nenhum outro que procurasse, tendo o corpo todo consumido por uma inegável sensação de prostração. Sua mente, num lampejo , vasculhou as lembranças até o único lugar possível de se encontrar sua pedra perdida: a fenda na neve. Ironia do destino.

Antes não tivesse descido para resgatar o amigo! Ou o fizesse com mais cuidado e presteza. Suas forças o abandonaram de tal forma que mal conseguiu esboçar reação com a tocha e, quando se lembrou do outro cristal no bolso do homem ferido, os fantasmas já estavam sobre ele.

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.... {[CONTINUA...]}

Um comentário:

Vinicius Dias disse...

Muito legal!!! Estou até com frio!!! Hehehe...

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