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sábado, 3 de outubro de 2009

Noites no gelo – Parte 2: Buscando ajuda


Todo viajante que passasse pela Muralha Branca levando um cristal, o fazia em algum bolso de fácil acesso, permanecendo, assim, preparado para um ataque imediato. Na verdade, o cristal para se espantar Sombras não era tão eficiente como se propunha. É a mais pura verdade que essa pedra peculiar, originária das regiões montanhosas do sudeste, tinha a singular e misteriosa propriedade de causar medo nos Vultos.
Não se sabe o por quê de tal reação. Sabe-se, contudo, que o efeito é temporário e só na primeira vez a criatura o sofre por completo. Apenas muito tempo depois, talvez dias, é que a Sombra da Neve voltará a temer uma pedra daquelas novamente. A intenção ao usar tal objeto é a de afastar o inimigo e ter tempo para escapar, indo o mais longe que puder. Ficando parado no mesmo lugar, uma pessoa se torna presa fácil das Sombras, justamente por ela saber onde procurar assim que expirar o efeito do afastamento.
O velho avançava além do que o seu físico jamais ousou parecer possível, cortando a neve por onde haviam passado há pouco, desaparecendo na imensidão branca que cobria o caminho entre as montanhas. Perto da fenda, o frio e o medo se engajavam numa luta pelo controle da consciência do homem que montava guarda junto ao amigo. Voltou nevar um pouco.
Transpondo a passos largos o gélido tapete branco, o velho praticamente jogava seu corpo para frente, devido ao desespero de alcançar o destino o quanto antes. Temia mais pela vida dos dois que ficaram do que pela sua própria. Sentia algum remorso por ter proposto ao mais novo ficar e guardar o lugar, pois no fundo sabia que um ato de verdadeira coragem seria o de se oferecer para ficar e encarar o perigo enquanto o outro saísse atrás de socorro.
Covarde. Covarde. A palavra ribombava dentro de seu mais profundo pensamento. Covarde. Abandonar um jovem sem experiência como se fosse um sacrifício a criaturas abomináveis. Entretanto, algo como uma sensação de alívio o preenchia por ter saído de lá. E tal sensação subjugava sua auto-condenação, pois, antes um covarde vivo do que um mártir, pensava ele. Enquanto se trancava contra pensamentos vexatórios e torturantes, andava tão rápido e desengonçado a ponto de suas botas se encherem de neve, que rapidamente derretiam e molhavam seus pés, diminuindo ainda mais a temperatura do corpo, um descuido grave que podia ter seu preço.
Para se andar na neve com segurança e eficiência, os homens tomavam alguns cuidados com os pés. Primeiro, devia-se cobrir os pés com meias grossas, tiras de grosso tecido e enfiar as barras da calça dentro das botas para evitar molhá-las. E, fora da bota, era necessário amarrar panos nas pontas e na sola, para que houvesse aderência à neve, agilizando os passos. Parecia claro que nenhuma dessas precauções ajudava muito o velho esbaforido, que continuava depressa, sabendo que as vidas de seus amigos dependiam dele conseguir ajuda o quanto antes.
Arfante e cansado, o pobre velho só pensava em como encontraria os companheiros de viagem. Vivos, ou mortos e ressecados pelo dreno de vida dos Vultos? Sabia que não era capaz de voltar com ajuda antes da noite seguinte. Se os jovens sobrevivessem à noite fria e perigosa, talvez pudessem... Não! Era praticamente impossível. Por que diabos foi abandoná-los? Mas que chance teriam eles, os três ficando lá? Quem sabe pudesse ter convencido o mais novo a ir embora com ele? Deixou lá o novato, exalando medo pelos poros. Tantos pensamentos povoavam a cabeça do velho que o distraiam, de um modo grosseiro, do cansaço das pernas e do corpo.
Com o raiar de um novo dia, aquele esgotado homem desesperado avistou fumaça deitando ao longe, através dos morros e das árvores nuas, repletas de neve, que ali já se faziam presentes em alguns pontos. Era provável que chegasse à estalagem ao meio-dia.
No vasto nada de montanhas brancas, a fogueira improvisada, suspensa sobre o tronco na estrada para se manter afastada da neve, oferecia o calor tão bem recebido pelo jovem guardião. Era dia, mas não havia perigo em se acender fogueiras a qualquer hora, e, mesmo à noite, era importante viajar com tochas acesas. Esses tais Vultos enxergavam perfeitamente no escuro e, sem uma luz com que se guiar, os viajantes ficariam em desvantagem imensa. Bem aquecido e deitado sobre o tronco, o jovem se protegia do frio como conseguia, se cobrindo e recebendo o calor do fogo, sem pensar em como seu amigo sofria no fundo do fosso na neve. Dentro de poucas horas, quando esse temor lhe passou pela cabeça, correu para ver como estava seu parceiro, mas não o encontrou em boa situação.
— Ei! — gritou o rapaz.
Mas a resposta demorou.
— Eu... — respondeu o homem no fundo da rachadura.
— Como você está se sentindo? — perguntou o jovem.
— Não consigo sentir minhas pernas... cabeça dói... dedos estão roxos... acho que vou morrer antes da ajuda chegar. Não sinto calor em nenhuma parte do... meu corpo.
De repente, um plano se formou no coração do novato aflito. Um plano arriscado e que possivelmente lhe custaria a vida, em caso de falha, mas ele devia tentar, não podia deixar o amigo morrer ali. Foi até sua mochila e a do velho, encostadas ao tronco, onde sabia que encontraria um machadinho, que eles usavam para rachar lenha nas viagens. Dirigiu-se até a fogueira, onde tomou um gole do chá que tinha deixado esquentando e voltou para a fenda.
Sem dizer palavra ao seu colega, amarrou a outra extremidade da corda à cintura, prendeu o machadinho na cinta e iniciou sua descida até o local onde seu amigo permanecia preso. A corda amarrada em sua cintura era um recurso que ele concebeu para não cair no abismo além o alcance da visão. Se caísse ali, jamais voltaria a ser encontrado, vivo ou morto. Só isso já lhe congelava a espinha ainda mais do que o vento frio. Agarrando firmemente a corda presa na arvore, foi descendo devagar, se apoiando com os pés onde podia e escorregando pela corda quando não encontrava apoio.
Depois de uns bons minutos, chegou à pedra que prendia o companheiro pela barriga. Apoiou-se nela e tocou a face do homem, para confirmar alguma reação e obteve resposta. O homem abriu o olho, mas, com a mente perturbada, não compreendeu nada daquilo e voltou a desmaiar. Até ali, o plano parecia estar funcionando corretamente e o jovem até se repreendeu por não ter tido aquela ideia antes. Empunhando o machadinho, começou a bater na pedra, para arrebentar a ponta que prendia seu companheiro. Como um escultor talhando uma rocha, desferia os golpes com cuidado, com as costas do machadinho, para não desmoronar alguma parede da fenda sobre eles. Aí sim estaria tudo perdido, para ele e o amigo.
Passado um longo período de tempo martelando, que mais dava a impressão de ter sido uma tarde toda, o rapaz conseguiu romper a rocha e libertar seu amigo, agora suspenso na mesma altura, graças à corda presa ao tronco. Não havia tempo, entretanto, para perder com qualquer coisa. O homem corria o risco de se desprender da corda e cair para a morte, a visitante que já lhe batia à porta.
Subindo rapidamente, sem voltar a olhar para baixo, com o corpo tremendo e as mãos frias de tanto martelar, o novato, quando chegou ao topo, percebeu o dia ainda claro e começou a puxar seu amigo lentamente, para que não o despertasse e ocasionasse movimentos bruscos. Enquanto puxava, pensou em como seu parceiro de viagem era resistente ao sobreviver por tanto tempo dentro da fenda fria e úmida. Imaginou que ele próprio não aguentaria por tanto tempo lá no fundo, preso à pedra, sob o manto de gelo levemente azulado ameaçando cair sobre sua cabeça. Sua respiração doía-lhe as narinas, e as mãos e os pés davam a impressão de não responderem mais. Mesmo o amigo tendo se envolvido em cobertores, ainda era difícil acreditar naquela vida que era salva.
Enfim, puxou o corpo frio e inerte para fora do buraco e o arrastou até a fogueira, deitando-o sobre o enorme tronco, onde ele próprio dormia horas atrás. Tratou de descansar, enquanto forçava o outro a beber um pouco de chá para aquecer o interior do corpo. Precisariam de ânimo para escolher o que fazer a seguir.
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.... {[CONTINUA...]}

Um comentário:

Fabiana Folly disse...

Gostei, fiquei curiosa para descobrir o que aconteceu a seguir...
Abraços!!!

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