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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Noites no gelo - Parte 1: Incidente


— Você nem faz ideia se vamos conseguir comer essa noite, quanto mais o quê. — comentou um deles.
— Eu caço qualquer coisa, sou bom de caça, idiota! — respondeu o outro, o novato.
O mais velho dos três, sabiamente, decidiu intervir na disputa juvenil dos seus companheiros de viagem, que vinha se estendendo demasiadamente.
— Parem de brigar, pelos deuses! Concentrem suas atenções nas encostas das montanhas. Eles podem aparecer a qualquer momento e, como não tem lua essa noite, fica mais difícil enxergar um se aproximando.
O homem e o jovem se calaram, entreolhando-se. Suas tochas quase se apagavam expostas ao inclemente poder da ventania. Os conselhos do velho não eram à toa.
Esses viajantes noturnos cobriam a passos largos a região, caminhando o máximo que podiam à noite e deixando para repousar durante o dia, e ainda assim revezando o sono. O motivo para tanta precaução era as criaturas sombrias e fantasmagóricas denominadas Sombras da Neve, ou Vultos da Neve, segundo relatos. Seres notívagos, esses espectros em forma de sombra, com dois reluzentes olhos vermelhos, caçam e transformam suas vítimas em um dos seus, ao drenar suas essências de vida. Na estação do frio, como era aquela, a neve cobria quase todo o caminho entre as montanhas. No verão, apenas parte das montanhas preservava o gelo mais resistente ao calor, fazendo os Vultos terem receio de se aventurar fora da área nevada.
As montanhas conhecidas como Muralha Branca são a fronteira entre o norte e o sul de Anerás e para atravessá-las é preciso uma certa dose de coragem, ou talvez insanidade. Entretanto, é também uma região cortada por rotas de mercadores e, se um viajante permanecer nas rotas antigas, as mais usadas, suas chances de uma travessia com sucesso serão maiores. Essas rotas foram traçadas durante os séculos, através de trilhas e estradas onde os ataques das criaturas eram menos frequentes. Mas, movimento atrai olhares.
Com pouca neve, os seres sombrios eram obrigados a caçar apenas quando tinham fome de almas, mas com a neve cobrindo tudo, eles se deliciavam a contento, atacando sem receio quaisquer pobres inexperientes viajando pelas trilhas no gelo.
Apesar de estarem na estação do frio, não nevava na Muralha há dois dias. A noite corria pela metade, quando um incidente, naquele tapete branco traiçoeiro, interrompeu a viagem dos passantes. Ao encontrar um enorme tronco velho impedindo o caminho da estrada, resolveram contorná-lo para seguir adiante. Como à esquerda do grupo, bem ao lado da trilha, uma escarpa se projetava em abismo de maneira muito íngreme, optaram por subir uns poucos metros o sopé da montanha à direita, onde notavam menos inclinação no terreno sem risco de cair.
No meio do caminho, porém, uma fenda na neve se abriu debaixo dos pés de um dos rapazes, fazendo-o cair e ficar preso, com a cintura enroscada a uma rachadura horizontal entre o gelo e a rocha, onde se via o buraco além, seguindo mundo adentro. Nenhum dos seus companheiros puderam ou tiveram tempo de reagir, a queda aconteceu rápido demais. E o buraco, bastante profundo, desaparecendo na escuridão sob os pés da vítima, era de causar medo e pânico. O desespero tomou conta dos colegas. Geralmente, uma fenda no gelo não dá uma segunda chance para vítimas de quedas, são buracos traiçoeiros sob um tênue manto de neve que, ao menor sinal de peso ou abalo, se mostram, tragando para suas entranhas as vítimas desavisadas. Portanto, quando uma chance de escapar surge, não se pode negá-la.
— Temos que jogar a corda! — gritou o velho, tentando começar a pensar.
O outro rapaz, mais jovem que o amigo no fundo da fenda, além de viajante novato, aparentava não ter os nervos no lugar. Temia pelas aparições que rondavam as montanhas. E agora à noite ainda! Eram alvos fáceis ali parados. Arrancou a corda presa à mochila e jogou-a para o velho, que imediatamente começou seu laço meio improvisado, uma técnica primitiva que conhecia e funcionava muito bem.
— Agora, nós vamos puxá-lo pra cima, entendeu? — o velho atacou, forçando o mais novo a se concentrar.
Rompendo as fronteiras do medo, eles se posicionaram na beirada da fenda e desceram a corda para o amigo, instruindo-o a prendê-la sob os braços e segurar firme. Puxaram uma vez, mas sem resultado; puxaram novamente, e, novamente, não obtiveram êxito. O velho pediu para tentarem com mais força e foi o que fizeram, mas o amigo no fundo da fenda gritou de dor.
— Estou ferido, não puxem! — gritou ele. — Acho que a pedra perfurou minha barriga e... aaaaaaaaaahhh... se vocês puxarem vai entrar mais ainda na carne.
Só o mais novo deles dava a impressão de não estar pensando numa solução, amedrontado como se apresentava aos olhos do velho. Mas foi o primeiro a romper a agitação do vento gelado assoviando em seus ouvidos e gritou ao velho:
— Vamos buscar ajuda!
— O quê? — O velho ficou intrigado. — Como?
— Há duas léguas passamos por um posto de repouso fora das montanhas, naquela mata de árvores secas, podem os ajudar.
— Duas léguas não são duas horas de caminhada na neve! E nosso companheiro vai ficar aqui, esperando ser encontrado por uma Sombra?
— Ele tem um cristal, vai ficar protegido.
— É uma solução, mas muito arriscada.
— Eu sei, senhor, mas...
— Mas tem que ser feito — o velho completou, sabendo que não tinha outro jeito de resolver o problema.
Pensaram por um tempo antes de agir e o homem preso na fenda, que tinha ouvido partes da discussão em voz alta dos colegas, gritou:
— Se alguém vai buscar ajuda, já é hora! Não dá pra ficar aqui esperando, com a barriga furada congelando por dentro, esperando pra morrer!
O velho então teve uma ideia e começou a colocá-la em prática. Segurando a corda de maneira firme, pediu ao jovem para amarrá-la a um galho do tronco caído na estrada. Como a corda tinha uns 30 metros, o intento funcionou e até sobrou mais corda do que o necessário para a outra parte do plano. Arrancou duas grossas cobertas de lã, que usavam nas viagens e desceu-as pela outra ponta da corda, até o seu amigo preso. Mandou que enrolasse uma em seu tronco, o melhor que conseguisse, e se cobrisse com a outra. Feito isso, voltou-se para seu jovem companheiro, com instruções a dar.
— Eu vou, você fica.
O rapaz, apavorado com a possibilidade de ficar ali sozinho, parado, em pleno território de Sombras da Neve, estremeceu. Mas num ímpeto de coragem, chamou a responsabilidade para si próprio e consentiu. Antes de partir, o velho ainda falou ao amigo:
— Vocês têm o cristal, vão ficar bem — comentou ele, aludindo à frase dita antes pelo rapaz.
Instantes depois, o homem observava o velho desaparecendo na estrada.
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Um comentário:

Feänor disse...

Resolveu voltar a escrever pelo o que vejo, fico feliz em ver que não perdeu o jeito com as histórias.

Espero que não demore a postar a segunda parte, estou curioso quanto ao destino que os deuses da fortuna reservaram para o rapaz.

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