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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Ninguém me toca

Era noite. Um homem baixo entrou na estalagem. Ele tinha, preso às costas, um machado de combate; vestia uma armadura surrada de couro e, presa à cintura, vinha uma bolsa de moedas bem cheia. O forasteiro chegou em busca de cama confortável e comida. Velas insistiam, de forma pouco eficiente, no trabalho de iluminar o ambiente tomado pela noite. O lugar começava a se tornar mais e mais frequentado.

Todo tipo de pessoa ia se divertir na taverna após trabalhar em um dia quente como aquele. O forasteiro procurou um canto onde pudesse ficar sossegado, apreciando uma boa cerveja e aguardando sua comida chegar. Olhava o movimento de pessoas, gente simplória em geral, tentando dar algum sentido maior à sua existência do que trabalhar sem descanso nas terras de algum nobre ou vendendo mercadorias compradas em outros lugares. Em menos de uma hora o lugar se via cheio de artesãos, caçadores, agricultores, vadias e mercenários, como ele próprio o era.

Quando o prato chegou, o homem pequeno, mas largo e bastante forte, pôs-se a comer seu pedaço de coxa assada, que havia comprado junto com o vinho. A comida tinha demorado a sair, pois, por se tratar de um dos primeiros a chegar, encontrou o estalajadeiro abrindo o lugar e sua esposa acendendo as chamas do forno. Mas agora comia com gosto, como se aquela peça de carne representasse o topo do mundo.

Bastante satisfeito com o desjejum e a cerveja, servida em uma caneca gorda, cheia até a borda, o mercenário optou por fica ali, olhando a gente dos vilarejos circundantes se meter com bebidas e seios de mulheres a noite toda. Algumas situações soavam bem hilárias ao seu ver e, com o tanto de bebida que ingeriu, até o cansaço da viagem tinha ficado um pouco de lado. Teve dança, gritaria e muita gente caindo de bêbado.

A madrugada ia alta quando uns poucos homens restaram na estalagem. Além do forasteiro mercenário, outros oito sujeitos com ares de deprimidos continuavam a beber. Mesmo o ambiente refletia um pouco essa névoa deprimente que envolvia a mente dos últimos frequentadores.

O viajante atarracado se dirigiu ao balcão da estalagem, para pagar sua última bebida e subir as escadas rumo ao descanso em um quarto bem quente e confortável. Mas, antes de tocar em sua bolsa de moedas, ouviu o ruído deslizante de uma lâmina cortando tecido. Virando-se o mais rápido que pôde, conseguiu ver um estranho se afastando de costas, como se nada tivesse acontecido.

Homem de poucas palavras, o viajante apenas arrancou seu machado das costas e o cravou sobre uma mesa, causando um estrondo no ambiente esfumaçado da estalagem. A impressão que tiveram os observadores foi a de que a arma literalmente cortou o ar denso da fumaça das dezenas de cachimbos acesos naquela única noite.

Parando no meio do caminho, o homem alto que tentava se afastar, querendo se fazer de despercebido, virou-se e olhou para a mesa rachada e o machado enterrado em seu centro. Aquilo significava “devolve o que é meu”, e ele entendeu muito bem; todavia, ele não era o único interessado na recheada bolsa de moedas do mercenário.

Os oito que ali se amontoavam, dissimuladamente, faziam parte de um bando de ladrões, no momento, determinados a roubar o mercenário. E quem sabe o que mais planejavam naquela noite?. Portanto, quando o mercenário disse “vou bater em você sem meu machado”, viu outros quatro homens se levantar e se aproximar do primeiro ladrão, para demonstrar que tinham o mesmo interesse. Ainda que os outros três não se levantassem, o mercenário soube que aquela era a quadrilha toda. Numa situação como a que se encontrava, ele pensou estar no direito de dizer outra frase para os malfeitores. E tudo que saiu de sua boca foi:

— Vou bater em vocês todos sem meu machado.

O grandalhão do grupo dos ladrões logo se adiantou e mostrou-se disposto a ser o primeiro e, porventura, o único a colocar as mãos naquele baixinho. Mas o que ele não sabia era que o baixinho em questão não era qualquer desocupado que viajava pelas estradas. O acompanhava uma longa história em batalhas, tão reais quanto a situação que se apresentava no momento, mas muito mais perigosas.

Um vento frio atravessou as janelas e tomou conta do ambiente. O primeiro golpe contra o baixinho foi tentado, cortando o ar sem maiores efeitos. O estalajadeiro permaneceu acuado em um canto, agarrado a uma faca, enquanto a pancadaria progredia de maneira impetuosa. O grandalhão tombou desmaiado, com um golpe certeiro do mercenário em sua nuca. Os oponentes seguintes foram os quatro outros distintos cavalheiros em pé que assistiam, descrentes, à derrota do amigo: o sujeito que havia surrupiado a bolsa de moedas e os três companheiros que dividiam o reduzido centro da estalagem com ele.

Mais uma vez a violência deu continuidade noite adentro. Sem tocar em seu machado, o homem pequeno, derrubou os três primeiros com certa facilidade. O primeiro conseguiu dar uns socos certeiros na cara do mercenário, mas encontrou um rosto rígido e resistente como pedra diante de seus punhos. O mercenário, agarrando os dedos do homem, virou-os para trás, quebrando as juntas e, em seguida ao urro de dor da sua vítima, socou-a repetidas vezes a cara, até que desmaiasse.

Aproveitando o embalo dos golpes, viu outro ladrão se aproximar com rapidez e guarda baixa. Com um soco cruzado do punho esquerdo, jogou o ladrão para o lado, sobre uma mesa que acabou se quebrando com o impacto. Nenhum deles acreditava encontrar tamanha força em um homem pequeno, mas não recuaram diante das baixas na linha de frente. Os outros dois que permaneciam em pé, ameaçavam o mercenário com uma faca e uma garrafa quebrada, sem, no entanto, tirar do rosto do homem sua expressão de determinação em levar a luta adiante. Ele estava mesmo era gostando! Enquanto espancava aquele bando de ladrões, o homem pequeno gritava “ninguém me toca, ninguém me toca” enfurecido e repetidas vezes.

Desviando do golpe de uma garrafa em cacos, fatal na mão do homem certo, o mercenário agarrou o braço do ladrão e dobrou-o para trás, cravando a garrafa quebrada na barriga do outro oponente que vinha com a adaga. Não acreditando na situação, o ladrão ferido caiu para trás e se arrastou até o canto da parede, tentando estancar o sangramento. O indivíduo com o braço imobilizado viu suas pernas bambearem ante a facilidade com que era derrotado por um homem tão pequeno. Puxando a garrafa de fundo quebrado da mão imobilizada do ladrão, o baixinho estocou-a com força na palma da mão presa, tornando-a inútil. Mais um grito de dor ecoou pelo ambiente esfumaçado.

Alguns hóspedes mais corajosos saíam dos seus quartos para assistir à batalha que se desenvolvia no salão da estalagem. A esposa do estalajadeiro se escondeu sob o balcão e não quis saber de assistir, e apenas seu marido, atônito, presenciava a cena.

Com todos os oponentes do momento derrotados, o mercenário puxou seu machado da mesa e, apesar da expectativa de todos, aguardando o uso da bela arma, ela foi colocada de volta nas costas. Olhando para os três ladrões restantes nas mesas, o mercenário se viu novamente obrigado a dizer algo.

— Mais algum de vocês? — disse finalmente.

Os três aproveitadores covardes apenas ajudaram seus companheiros de quadrilha a se levantar e sair, outros saíam se arrastando, gritando ameaças de retornar. O mercenário parou diante da porta da estalagem, antes que os dois últimos ladrões saíssem, um carregando o outro.

— Minha grana! — pediu ele, estendendo a mão.

O ladrão ferido, devolvendo a sacola de dinheiro, soltou um cuspe no chão, perto dos pés do mercenário. Voltando ao balcão e deixando os dois irem embora, o viajante retirou da sacola uma moeda de prata e deu ao estalajadeiro.

— Com que propósito me dá isso?

— Pelo prejuízo — respondeu o viajante.

— Tome de volta — disse o estalajadeiro, devolvendo a moeda. — Acaba de salvar minha vida. Quem imagina o que aquele bando faria aqui dentro?

O forasteiro não aceitou a devolução da moeda. Acendeu um cachimbo e subiu para seu aposento, a fim de descansar. No dia seguinte acordaria com uma mancha roxa ao lado da cara e detestava quando isso acontecia, mas culpava a si mesmo pelo descuido durante a briga. Talvez fosse somente um caso isolado, talvez estivesse envelhecendo e ficando mais lento. Talvez. O importante agora era dormir, mesmo com a briga tendo lhe tirado um pouco do efeito do álcool. A estalagem esfumaçada ficou para trás, com aquela bagunça toda para arrumar. A porta do recinto foi trancada assim que ele subiu. O quarto acolheu o homem pequeno como a um herói, com conforto e privacidade. A madrugada caminhava para seu fim.
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3 comentários:

sassá (Nosferatus) disse...

massa! me lembrou o Wolvi!

Vinicius Dias disse...

Grande! Muito legal! Consegui me sentir escondido atrás de uma mesa da estalagem, observando a pancadaria! Parabéns!

Duda Falcão disse...

Muito bem descrita a cena da briga, cara! Parecia que eu tava lendo uma das revistas em preto e branco do Conan. Ótimo! Além do comentário tô aqui pra saber por que você não fez o seu banner ainda? Quero divulgar o teu blog lá no Museu do Terror!
Um grande abraço!

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