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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Labirinto


Trevas. Era tudo que se encontrava ao entrar na famosa masmorra de Narca. Era famosa por estar ali mesmo antes da cidade existir e pelo intrincado labirinto que formava, com seus vários andares e salões. As antigas administrações de Narca aproveitaram ao máximo essa rede de túneis e salas, abrigando ali os delituosos da cidade. Qualquer crime, no passado era punido jogando-se o criminoso na masmorra. Onde, com o tempo, geralmente morria adoecido. Quanto mais grave fosse um crime, mais para dentro o sujeito era trancado.
Para se ter uma idéia do tamanho da masmorra, apenas o primeiro piso era usado para abrigar criminosos. Esse espaço era dividido em setores onde guardas e carcereiros faziam revezamento na vigilância. O primeiro piso também era destinado à administração da carceragem, um juizado para sentença de delitos e uma biblioteca de arquivamento de casos. Quando muito, era ocupado um terço da intrincada rede de corredores e salas do andar, transformadas em celas. O segundo piso e o terceiro, abaixo da carceragem, eram completamente abandonados e, pelas especulações, acreditava-se que nem as autoridades de Narca sabiam precisar a extensão de cada um. Corredores e salões intermináveis, úmidos e mergulhados em trevas contínuas pareciam ser capazes de abranger duas Narcas somente no segundo piso. Estimava-se levar cerca de vinte dias para percorrer o piso todo, seus quartos salões e corredores. Isso obedecendo a um ritmo razoável de caminhada.
No passado uma expedição andou mapeando o terceiro piso, mas, como muitos homens ficavam doentes com poucas horas de permanência no andar, a missão foi cancelada. Apenas algumas galerias foram registradas nos documentos oficiais. É um nível totalmente desconhecido da colossal masmorra.
A entrada do famoso labirinto era guarnecida de reforçados portões de aço, seguido de um amplo salão, onde funcionou a desativada ala de espera para triagem de criminosos. Toda a construção dava a impressão de ser milimetricamente planejada para resistir ao tempo e ao homem. Sua estrutura de rocha podia suportar os séculos vindouros sem o menor esforço. Com que propósito tamanha estrutura subterrânea fora construída? E por quem? Um enigma sem solução?
O complexo de Narca era sujo e úmido, um campo propício à proliferação de doenças. Para piorar a situação, era prática comum entre os soldados soltar ratos, aranhas e outros bichos que causavam males na população carcerária. Bichos que os próprios soldados capturavam em armadilhas espalhadas pelas redondezas ou em suas casas. Essa prática desumana era comum entre a guarda da masmorra. Houve um caso polêmico em que toda uma comunidade carcerária, junto com parte do efetivo militar, foi dizimada pela peste dos ratos e, sob ordens do magistrado-maior de Narca, as masmorras foram postas em quarentena. Mas onde abrigar os criminosos e delinqüentes diariamente capturados pela milícia local? A solução encontrada foi construir um novo calabouço, numa região afastada da cidade. Uma construção feita utilizando a mão de obra dos próprios criminosos, obrigados a trabalhar para pagar por infrações mais leves. Geralmente crimes pequenos, como roubos, golpes e brigas com facas em tavernas. Crimes graves eram punidos com morte ou encarceramento perpétuo, dependendo da sentença. Não se pode, porém, pensar que a cidade não tenha se expandido e chegado até o local onde foi escavado e construído o novo complexo de celas.
Com a adoção da nova região carcerária, as antigas masmorras foram definitivamente abandonadas, talvez para o próprio bem da cidade, que agora suspeitava que lá habitasse uma criatura das trevas, cujo hábito era o de caçar homens e mulheres sadios e se alimentar de seu sangue. O boato tinha fundamento, já que corpos foram encontrados, incontáveis vezes, às portas da masmorra, totalmente sem sangue. Quantos outros cadáveres não deviam estar apodrecendo lá dentro?
Após uma infrutífera reunião com o rei de Anerás, o magistrado da cidade ordenou que explodissem a entrada principal do complexo de Narca. Suspeitava-se, contudo, de haver outros acessos ao complexo de infinitos corredores, caso o contrário, como explicar que ainda ocorriam os casos de corpos totalmente sem sangue que apareciam da noite para o dia?
Um mistério a ser desvendado. Mas quem teria coragem de vasculhar as masmorras, já que todos alegavam que a morte passeava pelos seus corredores? Seria uma nova doença, capaz de secar o sangue dos homens? Ou a morte vinha pelas mãos de um monstro sugador de sangue? Será que os antigos construtores da masmorra não encontraram em suas escavações algo além de sua compreensão, e que agora teria despertado novamente?
A resposta reside dentro do labirinto nefasto. Quem se habilita?
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7 comentários:

Lalo Oliveira disse...

"O complexo de Narca era sujo e úmido, um campo propício à proliferação de doenças."

Me lembrou muito os hospitais públicos, caóticos! Que por sua vez, não foram trocados por 'prisões melhores'.

www.poeses.blogspot.com

Caio Tadeu de Moraes disse...

Recordo-me que foi essa mesma mesma instiga, o mistério, a curiosidade e medo de explorar terras desconhecidas, inóspitas e perigosas; que me despertou uma paixão por contos de RPG a alguns anos atrás.

Mais uma grande obra de Orfanik!

"Me lembrou muito os hospitais públicos"

Rss.. foi boa a alegoria, também me fez pensar se não seria Anerás uma critica indireta ao mundo humano...

Valew Orfanik, ficou muito bom companheiro!

Passa no meu blog depois? Abraços!

jAO disse...

Orfanik, muito bom.
Gostei dos contos, como sempre os admiro.
O melhor blog.
Abrakos!

Cenildon disse...

Fala Orfanik!
Muito bom o conto.
Já deu uma passada lá no blog do meu livro? Dá uma olhada depois. =]
Adicionei o seu site lá nos meu links, se você puder adicionar ai no seu também seria bacana. =]
É isso ai.
Abraços!

ContoSemContexto disse...

Parabens pelo Blog...conheça nossos contos tambem - http://contosemcontexto.blogspot.com

livrorama disse...

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Sindicato Literário disse...

Boa tarde.
Gostei do estilo do blogue.
Sou escritor, escrevo pra alguns jornais e sites aqui de Curitiba e acredito que a literatura dos blogues é uma das melhores ferramentas de exercício literário e divulgação dos trabalhos.

Abraços
Daniel Zanella

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