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terça-feira, 27 de maio de 2008

O lar dos fantasmas

Dois homens avançavam dentro da floresta. Aquele era um caminho antigo, pouco usado pelos viajantes da região. Havia deixado de ser uma estrada oficial do reino para se tornar apenas uma trilha. Por se localizar entre a cidade de Vuda e as fazendas da região, era usada apenas como atalho e só por moradores mais corajosos e menos supersticiosos. A população do campo dizia que na floresta por onde serpenteava a antiga estrada os fantasmas se apossavam da vida dos viajantes. Diziam que armavam emboscadas causando medo e pânico nos que passavam por ela.

Muitos preferiam a estrada nova, construída pelo regente há 13 anos, porque corria a oeste, ao largo da misteriosa floresta e, apesar de tornar mais longo o caminho até a cidade, era ampla, bem pavimentada com cascalhos e usualmente patrulhada por soldados.

Os dois viajantes que atravessavam o caminho, agora cheio de árvores novas e velhas e vegetação rasteira abundante, se depararam com uma velha mansão aos pedaços. A casa parecia ter sido abandonada ao longo do tempo em que a estrada foi deixando de ser usada, pois mostrava sinais bastante antigos de reforma na fachada assim como partes totalmente deterioradas em outros cantos. Mantinha, contudo, certos traços intactos, ainda que arranhados pelas intempéries. Sua estrutura era forte e resistira com certa valentia aos golpes do tempo e da natureza. Ainda assim, seria necessário um esforço tremendo para tornar o local habitável novamente.

Logo na entrada, os portões exibiam dois crânios de touro, um de cada lado. Atrás da velha mansão se estendia um enorme campo sem árvores, tomado pelo matagal, possivelmente um antigo pasto para criação de animais, como indicava as cabeças de touro no portão. No jardim, uma enorme árvore deixava cair seus galhos verdes até o chão, dando a impressão de uma cúpula a quem se servisse de sua sombra. As janelas, despencadas das paredes, espalhavam restos de madeira pela varanda afora. A soleira gasta da porta recebia os dois homens admirados que chegavam.

— Pode ser assombrada — brincou um deles. O outro apenas riu.

Conversando rapidamente, aqueles dois amigos decidiram que se tratava de um bom lugar para passar a noite protegidos do frio. Tinham a aparência de mercenários. Um era espadachim, devidamente equipado com espada, escudo e algumas proteções metálicas costuradas à armadura de couro. O outro era habilidoso com armas de ataque à distância e trazia um arco e uma aljava cheia de flechas, além de uma pistola de dois disparos no coldre preso à cintura.

Resolveram entrar e se abrigar da noite que vinha ao seu encontro. Como era uma casa abandonada, os homens deixaram de lado as usuais cautelas de quando invadem um lugar. Foram entrando, escancarando as velhas e grossas portas de carvalho, revelando um amplo salão, entrecortado por colunas também de carvalho. A julgar pelo estado das colunas, deduziram que a casa não despencaria sobre suas cabeças. A velha lareira de pedra jazia empoeirada num canto. O vento, arauto dos espíritos, arrastava folhas secas para dentro do salão.

Arrumaram as coisas em um canto, perto da lareira, e saíram à procura de lenha. Minutos depois, retornaram com os braços cheios de tocos e gravetos para iniciar o fogo e aquecer a noite que já se adiantava. Com a fogueira acesa e os sacos de dormir estendidos no chão, acenderam tochas e puseram-se a vasculhar a empoeirada mansão, visitando os cômodos superiores e inferiores. Como já eram amigos desde a infância, nem precisavam combinar de dividir o que encontrassem.

O espadachim desceu ao porão e o seu companheiro subiu as escadas em direção aos aposentos; olharam tudo com atenção demorada.

O arqueiro checou os aposentos, alguns ainda ostentavam velhos móveis e fragmentos de tapeçaria quase completamente devoradas pelas traças. Decidiu andar com cuidado, pois o chão rangia constantemente com seu peso. Andava vagarosamente, a cada passo testando o assoalho e se assegurando dos pontos onde poderia colocar os pés. Abriu gavetas de velhos armários e levantou um grande colchão carcomido que jazia sobre uma cama despencada, apenas para impregnar o ar de poeira. O espadachim, no subsolo, se deparou com garrafas de vinho quebradas e lamentou não ter sobrado uma sequer com o precioso líquido. Muitas teias de aranha cobriam as paredes e as estantes da velha adega. No fim do corredor, uma fileira de tonéis com suas tábuas empenadas. A silenciosa chama da tocha não acusava passagem de ar, fazendo o espadachim concluir que ali não havia outro acesso para a adega.

A noite já ia alta quando os dois ouviram uma batida abafada, como o de uma porta, ecoar pelas paredes da velha mansão. Não deram importância, pois cada um achava que o outro tinha causado o barulho. Todavia, num curto espaço de tempo, tudo se mostrou diferente aos olhos dos dois exploradores. Mais uma vez o som abafado de porta batendo e, desta vez, o arqueiro gritou pelo amigo.

— O que está fazendo aí embaixo? — indagou, no tom mais alto que conseguiu.

A pergunta ecoou dentro da adega, mas com uma voz diferente, mais áspera e sombria.

— O que está fazendo aí embaixo? — a voz repetia, escarnecedora, o apelo do arqueiro.

O arqueiro, ouvindo a estranha voz pensou se tratar de outro hóspede inesperado. Uma terceira vez se ouviu o som abafado do bater de uma porta. Novamente o arqueiro chamou pelo amigo.

— O que está acontecendo aí? — gritou ele, sem obter resposta.

Teve um estranho pressentimento e decidiu descer para verificar. O som das últimas frases ecoava no subsolo, onde se achava o espadachim. “O que está acontecendo aí?”, repetia várias vezes a voz sussurrante. Enquanto aquele som estranho se repetia pelos aposentos, o espadachim subiu lentamente os degraus de pedra.

O arqueiro, ao descer as escadas com cuidado, foi tomado por uma sensação de medo que jamais sentira antes. No centro do salão se movia um morto-vivo, arrastando perna após perna, fracamente iluminado pela luz da lareira. Pensou que os barulhos ouvidos anteriormente podiam ser o ataque do monstro a seu amigo, que devia estar morto no porão. Caminhou lentamente até suas coisas e alcançou o arco com a aljava. Deitou sua tocha na lareira e levantou o arco, mirando uma flecha no peito do monstro, aguardando alguma reação. Sua intenção era chegar mais perto e atear fogo no monstro com a tocha. Mas antes precisava saber o quão veloz era a criatura.

O espadachim, ao chegar no aposento superior, aguardou a volta do amigo, em pé, com a espada em punho. Com os nervos tensos por causa dos sons ecoantes, ficou ali parado, olhando o salão vazio. Não conseguiu acreditar no que seus olhos viram em seguida. O arco de seu amigo havia se levantado sozinho do chão e agora apontava uma flecha para ele. Seu primeiro pensamento foi o de atacar e quebrar o arco, se resguardando de um possível dano. Quando dava alguns passos, o arco o seguia, entesado, com a mira garantida o acompanhando. A única solução era avançar com rapidez, se esquivando se o arco disparasse.

Quando viu que o morto-vivo vinha com velocidade em sua direção, o arqueiro atirou, derrubando o monstro no chão e pegando a tocha para aproveitar a oportunidade e lhe atear fogo. O espadachim não contava com a rapidez do disparo e caiu, atingido pela flecha do atirador fantasma. O arqueiro, quando se aproximou do corpo, se desesperou, caindo ao chão. Como se uma névoa espessa lhe estivesse ofuscando a visão até aquele momento e desaparecido de imediato, o arqueiro percebeu o jogo de ilusões do qual fora vítima. Era seu próprio amigo que jazia ali, com a flecha certeira no peito, cuspindo sangue e ofegando. Ajoelhado diante dele, com os braços parcialmente abertos, procurou sentir alguma calma dentro de si, mas não a encontrou. Sabia que o amigo ia morrer. Colocou as mãos sobre o peito de seu companheiro, sentindo-o tocar sua mão em seguida.

— F-f-fomos enganados. Ilusão. — disse o espadachim. — Vá antes que morra também.

Pereceu ao terminar a frase.

O arqueiro, contudo, não teve coragem de deixar o corpo do amigo ali, abandonado aos fantasmas da velha casa. E agora escutava as mesmas vozes que seu companheiro ouvira anteriormente. Eram as frases proferidas por ele mesmo, mas espalhadas por vozes sussurrantes e constantes. Enlouquecido pelo que havia feito, sofrendo um forte poder de sugestão das vozes fantasmagóricas, pegou a pistola de onde se achavam suas coisas e voltou a rastejar até o corpo do espadachim. Arrasado pela morte de um amigo que era quase um irmão, o arqueiro se viu colocando o cano da pistola na própria boca. Chorando a perda e arrasado pela tragédia que o envolvia, visivelmente perturbado pela influência das vozes, tocou levemente o gatilho, sentindo-o áspero em seu dedo.

Lá fora as aves da noite crocitavam, acompanhando os sons da floresta. Sons abafados pelo barulho ecoante do disparo vindo da velha mansão assombrada. Mais uma vítima dos fantasmas havia tombado. Sucumbiu à força maligna dos entes sobrenaturais que jamais abandonaram aquela velha mansão onde viveram em vida.

Lá fora, a floresta continuou a espalhar seus costumeiros ruídos noturnos, se preparando para um novo dia, talvez trazendo novos incautos para velhas armadilhas.

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12 comentários:

diógenes daniel disse...

Bem legal! Muito boas as descrições, o ritmo é empolgante... vou voltar sempre.
abraço

tibor disse...

A idéia é boa, mas tem problemas de construção, algumas contradições e exagero lírico em algumas passagens.

Orfanik K. disse...

Problemas de construção? - seria gramatical?

Contradições? - De acordo com o quê?

Exagero lírico? - Cada um usa o estilo que lhe aprouver!

Comentário muito vago, Tibor...


Aos que querem fazer críticas, serão aceitas e postadas, mas, por gentileza, sejam mais específicos quanto ao que dizem. Assim posso analisar melhor onde estaria "errando" e aprimorar meus contos a partir daí!

tibor disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Maranganha disse...

Eu achei o texto bastante interessante, e cômico.

Orfanik K. disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
diógenes daniel disse...

Realmente, Tibor... muito vago seu comentário.

Anônimo disse...

Tibor...?
Não entendi o que esse cara quis dizer,
mas lendo rapidinho a sua narrativa ela está boa, continue!
Atée!

Invasão disse...

Awe Orfanik, é o Caio T. da Estalagem, tudo bom?

Malzz a demora para comenta, tava sem tempo antes e acabei esquecendo...


Uuuuhh.. meio perturbador esse último conto.. mas fico bom... Você é um escritor bem frexivel...

Ainda me lembro quando lia você falar sobre as estrelas e belos animais, rsss


Abraços^^

Orfanik K. disse...

Tibor, a leitura comentada ajudou bastante a melhorar a estrutura do texto.
Suas críticas são construtivas. Passam longe de serem negativas. Realmente são detalhes que me passaram despercebidos devido à escassez de tempo para uma revisão mais apurada.

Obrigado pela ajuda, caro colega...

******** disse...

Achei seus textos muito originais e bem construídos.Além disso esse é meu gênero favorito.Vou vir sempre aqui.
Parabéns!

Duda Falcão disse...

Olá, Orfanik! Faz tempo que não chego por aqui! Sempre gostei muito de contos de fantasmas. Já deu uma lida naquela coletânea: Contos fantásticos do século XIX reunidos pelo Italo Calvino? Vale ler!
Diria que o seu conto é um conto fantasgótico, he, he. Fantasia + gótico. cenário: uma casa assombrada. Personagens: esses tem jeito de sair de um livro de fantasia. Gostei da mistura. Um abraço e até breve.

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