ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Lugar para acampar

O velho ia calmamente pela estrada, montado em seu burrinho, carregando alguns sacos de mercadoria de pouco valor para vender numa pequena cidade onde comercializava havia anos. Era um entardecer tranqüilo, pertencente a uma primavera ensolarada e perfumada. Algumas flores selvagens cresciam ao longo da estrada, dando a ela um ar melancólico com o pôr-do-sol. Logo chegaria a noite e o velho precisava achar uma clareira para pernoitar, e precisava ser uma clareira afastada da estrada. Um senhor bem vivido como aquele tinha seus truques para continuar sobrevivendo naquele mundo mercadejo. Um comerciante viajante devia prezar pelas suas mercadorias tanto quanto pela sua vida. Duvidava ele do real valor das suas bugigangas. Ainda assim, entraria na floresta para encontrar um lugar seguro a fim de passar a noite.

Com uns puxões na correia, o burrinho se desviou para a direita do caminho, entrando numa área menos densa da mata. O velho seguiu floresta adentro, cortando entre as árvores, em meio ao cantar vespertino da passarada se apinhando em seus ninhos para aguardar a chegada da noite. Seguiu cavalgando, até se sentir distante o suficiente da estrada. Ao chegar em um ponto sem árvores, onde o terreno se inclinava adiante, parou, desmontou do animal cansado e foi preparar uma fogueira, para espantar as feras, os insetos e o ar frio da madrugada. Enquanto atiçava o fogo, o burrinho se comportava de maneira inquieta e agitada, dando a impressão de que não gostava do lugar. Algo o incomodava, de fato. O velho, porém, ignorando o instinto animal de seu parceiro, continuou a avivar a fogueira crepitante.

A área descoberta era forrada de uma grama verde e semicirculada de pedras, ao menos se tinha a impressão de que algumas pedras medianas faziam um contorno margeando as árvores. Que importava? Encontrou uma clareira boa para o seu repouso. Fez a fogueira sobre uma pedra lisa que havia em um dos cantos da clareira, raspando a grama ao redor para evitar que o fogo se espalhasse enquanto dormia. Já com a chama acesa e aquecendo a noite que chegava de vez, ele dedicou-se a comer um pão que trouxera para a viagem, junto com um naco de carne seca, revezando as mordidas no pão e na carne com goles de água da sua botija. Era o pouco que lhe havia sobrado naquele fim de viagem. Agora só restavam três dias para se chegar à cidadezinha, onde poderia vender suas mercadorias.

Um frio repentino lhe correu a espinha, mas nenhum vento balançou as árvores próximas ao velho. Retirou de cima do burrinho um cobertor que fazia também a vez de sela, recostou-se a uma pedra e chamou o sono. Como era costume entre muitos viajantes, a hora de descanso era a hora em que o sol ia embora, portanto, os viajantes buscavam dormir todo o período de horas escuras, para acordar sempre cedo e aproveitar o máximo de claridade do dia para seguir em frente. O velho solitário dormiu por um período de cerca de 5 horas até que foi despertado pelo seu burrinho inquieto, zurrando sem parar. O animal agitava-se, com os pêlos da nuca eriçados, como se quisesse arrebentar a corda e desaparecer dali o quanto antes.

Praguejando um pouco, pensou em acalmar o animal, e, também, olhar ao redor para ver se se tratava de uma ameaça escondida na mata. O dito burrinho era um excelente aviso sonoro contra aproximações. Pegando um toco aceso da fogueira, ele foi ver o que podia fazer pelo seu companheiro. Constatando que não corria perigo, até onde sabia, voltou a se deitar encostado à pedra, mas sentiu algo sob a coberta. Parecia estar coberto pela grama. Podia ser um toco, ou uma pedra despontando do chão, já que o lugar era cheio delas. Parecia mesmo um toco, pois saiu da terra com facilidade, mas quando o velho trouxe a peça para a luz e sacudiu os pedaços de terra que a cobriam, caiu para trás num rápido susto. Um terror repentino tomou conta de sua alma, invadindo e se alastrando dentro dele como uma enchente quando cobre um vale. Era um osso, ou melhor, um braço de gente, com a mão esquelética e todos os dedos, ainda firmemente envolvidos em uns restos de trapos apodrecidos pelo tempo.

O burrinho voltou a se agitar amarrado à árvore, e o velho notou uma claridade cercando o acampamento. Enquanto olhava a ossada humana que tinha descartado no chão, suava frio, contemplando talvez um temor antigo, talvez seu futuro próximo. E o medo aumentando dentro dele, ardendo em cada parte de seu corpo, como se as possuísse para controlá-las. Pensou logo em sair dali. Mas quando foi envolvido por aquela luz que se intensificava ainda mais, levantou os olhos e se viu cercado por figuras fantasmagóricas, brancas e luminosas, de olhar cavernoso e aparência abominável.

O grito do velho ecoou pela floresta. A revelação lhe veio como se dada pelos deuses: estava acampado sobre um cemitério. Podia ser clandestino ou se tratar de algum povoado antigo que viveu ali. O temor de ser envolvido por tais figuras, no entanto, não o permitiu pensar em nada enquanto encarava a medonha aproximação dos mortos. Largando tudo para trás, saiu do círculo de fantasmas e correu para o seu burrinho; cortou a corda que amarrava o animal e saltou sobre ele, tocando para fora da clareira maldita.

Os espectros o seguiam, mas lentamente, como se quisessem apenas proteger aquele chão sagrado. Depois de algum tempo, o velho se viu perdido na mata densa, mas, ao menos, estava longe daquelas criaturas de outro mundo. Não imaginava para onde estava cavalgando, qualquer lugar longe daquela clareira era melhor que nada, e o tal pavor que o consumia dava a impressão de se recolher, de voltar para o inconsciente. Não tinha cabeça para pensar na parte da mercadoria que ficou no acampamento, sequer podia pensar em que direção tomar naquela hora tardia da madrugada, imaginando estar sob o olhar sobrenatural dos fantasmas na floresta.

Rezava à deusa mãe e aos seus deuses ancestrais para que não topasse com mais nenhuma daquelas coisas espantosas, para reencontrar o caminho da estrada, e poder ir embora, mesmo sem descanso. Por horas andou a esmo, cansado e assustado, pela floresta sombria, que, depois do episódio, dava a impressão de ser mais sombria, com seus segredos guardados sob as pedras, sob as raízes de árvores antigas, sob a terra.

* * *

Dois homens vinham andando pela estrada. Um deles apontou para o burrinho que cavalgava na direção deles carregando alguém. Quando se aproximaram, o homem que tinha apontado fez um esforço para deter o avanço do animal, que parecia determinado a continuar estrada afora. O outro homem, encapuzado, chamou a atenção de seu amigo para as mãos do cavaleiro. Quando olharam melhor para o velho, não encontraram vida. Suas mãozinhas enrugadas prendiam as rédeas com tanta insistência que quase acusavam que ele fugira de algum perigo durante a noite. Com um pouco de dificuldade, retiraram o homem da montaria sem sela e o levaram para a beira da estrada. Decidiram enterrá-lo ali mesmo, pois não tinha nenhum povoado que ficasse a menos de dois dias de viagem.

Um dos homens, que era um mineiro, trazia uma picareta pequena e começou a cavar um buraco de forma rudimentar com a ferramenta que tinha em mãos. Enterraram o velho, fizeram uma prece breve aos deuses e partiram, levando o burrinho com eles. Era um belo animal e morreria ficando ali sem água.

O túmulo de barro ficou marcado com uma pedra lisa, posta em pé, e um toco de árvore, enfiado no solo. Mais um espírito vagando pela floresta, um fantasma daquele bosque infinito de almas; mais um familiar que não voltaria para casa naquele dia, mais uma família que perdia um ente. Mais uma pedra marcando um território. Vagou a vida inteira, tentando sobreviver, sustentando esposa, filhos e netos com o que conseguia vender. Agora vagaria, entre as árvores, sob a lua à meia-noite, defendendo o lugar onde seu corpo repousava, até que a terra corroesse tudo, ou ainda além.

.

..

...

....

2 comentários:

diógenes daniel disse...

muito bom o conto! Conciso, final interessante...

Luciano disse...

Gostei do seu blog,escrever é meu passa tempo preferido,estou arriscando em alguns contos e poesia.De uma olhada,se você gostar de sua opinião,ok//abraço//

Pesquisar em Anerás