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sexta-feira, 28 de março de 2008

De canto de olho

Para Arthur C. Clarke (1917 - 2008)

e seu conto O céu impiedoso.



Diário do capitão Burdo, da expedição exploratória do setor norte do Grande Mar Oceano, sob as ordens e bênçãos do soberano de Anerás.

39º dia.

“Estamos encalhados há mais de duas semanas! Apenas aguardando o degelo para continuarmos nossa jornada de desbravamento do Mar Oceano. Os marujos estão cansados demais, uns até doentes por causa do frio extremo desse lugar. Jamais viajei por lugares tão frios nesse imenso mar”.

40º dia.

“Hoje foi um dia crítico. Acabou a carne seca. Estamos todos, sem exceção, nos alimentando apenas de caldos e sopas. Não se pode ter regalias em situações assim, onde a maioria dos tripulantes se revoltaria em um motim. Eu já estava prevendo a escassez de alimentos, portanto não permiti que meu imediato reservasse provisões para o grupo de comando e deixasse os trabalhadores todos à própria sorte”.

41º dia.

“Acender fogueira em um navio é coisa complicada, tendo em vista que quase toda a embarcação é constituída de madeira. Mas os homens ameaçam nos subjugar a cada vez que tentamos vetar algum de seus intentos. Eu, meu imediato e nosso médico somos vítimas fáceis, já que os marinheiros de baixa patente são a maioria. Temo pelas nossas vidas!”.

42º dia.

“Caso alguém encontre esse diário, que farei questão de esconder da vista desses ordinários vira-casacas, que fiquem cientes de que o marinheiro de nome Dzilo foi o incitador do motim. Estamos presos, mas com alguma esperança, já que ouvimos tambores à distância. Os amotinados terão que ser levados a julgamento e, certamente, serão enforcados. Esse Dzilo ainda há de pagar o que está fazendo. Só permite que os marujos nos tragam pães endurecidos e restos de comida. Comida que eles esbanjam sem planejamento algum! Também somos privados de cobertores à noite, o que encurta em muito nossas horas de sono”.

43º dia.

“O médico está mal. Não sabemos o que ele tem. Fica delirando o dia todo e à noite também. Imagino que esteja assim por causa do mofo de nosso cárcere, no convés inferior. Aqui infiltra muita dessa água gelada. Ouvimos novamente barulho de tambores distantes”.

44º dia.

“Perdemos nosso companheiro e médico de toda a tripulação. Esses oficiais insubordinados vão pagar caro por isso. Hoje os tambores não foram ouvidos”.

45º dia.

“Um dos homens veio nos contar que três rapazes saíram para tentar encontrar comida, mas apenas um voltou. Pálido e com muito sangue nas roupas, contou aos outros que alguma coisa sem forma os havia atacado no gelo, enquanto rastreavam uma foca, ou animal parecido. Nada mais de tambores até agora”.

46º dia.

“Meus pés estão congelando, molhados e cheios de feridas. Pedi para que retirassem um pouco da água que se fazia entrar por algumas rachaduras provocadas pelo gelo que comprimia o navio. Eles, contra todas as expectativas, atenderam nossos pedidos. Fui informado também de que o corpo do nosso médico está largado ao ar livre, exposto a toda sorte de feras e intempéries dessa terra. Que humilhação para um homem que tão bem serviu nosso reino! Uma coisa estranha ocorreu após o anoitecer: ouvimos urros e grunhidos de alguma fera. Talvez possamos caçá-la, assim teremos carne novamente!”.

47º dia.

“Sinto calafrios na espinha e não é resultado do gelo que nos cerca. A toda hora, ouço os urros insanos do que quer que seja aquilo que anda lá fora e apavora os amotinados”.

48º dia.

“Me parece que não é só uma fera monstruosa que anda lá fora, aguardando uma presa fácil. Imagino que quando nossa munição acabar, os monstros atacarão. Rezo aos deuses para que o gelo derreta logo e solte o navio, para que possamos estar a salvos e longe do que quer que seja. Uma equipe de cinco marujos, bons arqueiros, saiu para vigiar as proximidades do navio”.

49º dia.

“Droga! Tenho cinco homens mortos e, ainda assim, Dzilo não quer nos soltar. Maldito! Vai arder nas profundezas! Os corpos dos cinco foram arremessados para dentro do convés principal durante a madrugada. Talvez em um momento de descuido do vigia, pois este alega não ter visto coisa alguma. Imbecil beberrão. Não fosse o vinho barato ele certamente teria visto tudo ao redor no navio! Os corpos estão mutilados; lhes falta metade da cintura para baixo. Que criaturas seriam capazes de tal atrocidade? Devem estar nos provocando, nos testando, devolvendo os corpos naquele estado. Entre os amotinados, alguns já questionam a autoridade de Dzilo e me informam da situação constantemente, nos ajudando no que precisamos. Eles se queixam de que Dzilo não fez nada do que prometeu e que duvidam da capacidade dele de sair dessa situação. Acho que esse salafrário logo logo é derrubado de seu posto”.

50º dia.

“Houve um ataque. Não ouço mais o urro aterrador das criaturas, mas certamente alguns homens a viram e vão fazer um relato preciso de tudo. Meu imediato está tão fraco que não consegue parar em pé. Droga! Dzilo é quem devia ter morrido nas garras dos monstros lá fora. Metade da tripulação morreu no ataque”.

51º dia.

“Por não conseguir sustentar a situação, Dzilo foi deposto do seu cargo temporário e preso. Eu e o imediato fomos soltos e, sob a promessa de fazer o impossível para nos proteger de tal criatura, ordenei que tratassem do imediato com a comida mais forte que havia sobrado. Para o restante, apenas pão e um pouco de rum! Eles aceitaram os termos”.

52º dia.

“Estamos cercados, mas, como meus homens informaram, os monstros não são visíveis quando escurece. Talvez por isso, atacam apenas à noite, que é o período predominante por aqui, agora que é inverno. Temos poucas horas de claridade e menos tempo ainda de luz solar. A noite os torna invisíveis, se é que isso é possível, pelos deuses. As feras urram alto e ferozmente, mas sequer sabemos de onde vêm os sons. Fomos atacados novamente e um dos nossos morreu bem embaixo do nosso nariz”.

53º dia.

“O imediato acordou, mas ficou de cama obedecendo minhas ordens diretas. Garanti que, se precisasse dele, mandaria chamá-lo. Esses vermes da neve estão, a cada noite, se alimentando de nossa carne sem que ao menos saibamos onde estão. E os restos mortais que são jogados de volta ao navio? São aterradores. Vêm em pedaços dilacerados por enormes garras que deixam marcas muito fundas na carne”.

54º dia.

“O imediato pediu para que o sentássemos no alto do tombadilho, com seu arcabuz preparado. Lá ele ficou após o anoitecer, sob a luz das tochas. Ele é o homem mais hábil com uma arma na embarcação. Surpreendentemente, ouvimos seu disparo e vimos sangue escorrendo no gelo. Em seguida, fomos livres de um ataque iminente das tais criaturas pelo sopro da deusa Mãe. Vento do sul, mais quente, começou a soprar. Nossa sorte estava mudando. Subitamente os monstros cessaram de urrar e, sem que víssemos coisa qualquer, percebemos estar novamente sozinhos. Horas depois o gelo deu sinais de fadiga. Ah, como é doce o som do gelo se partindo. Com o casco danificado, e fatalmente sem a maioria dos marujos, estamos indo embora. E, mesmo sob tais circunstâncias, sem nossos companheiros, partimos aliviados por estarmos vivos”.

55º dia.

“Vento favorável e alguma pesca para nos alimentar. Sabemos da urgência em voltar à terra firme, mas estamos mais tranqüilos por deixar aquela região habitada por monstros desconhecidos. O que seriam aquelas criaturas devoradoras de homens? É certo que temiam o mar, pois sabiam que o gelo partiria e foram embora antes que acontecesse. O imediato, quando questionado a respeito do tiro, disse apenas que mirou no que parecia ser o contorno tênue de alguma coisa grande, mas não soube dizer que forma tinha essa coisa. Nem ele próprio soube dizer como conseguiu ‘ver’ a silhueta do monstro. Não parava de repetir que a criatura que ele matou só era percebida ‘de canto de olho’, se é que dá para explicar dessa forma”.

56º dia.

“Avistamos o continente. Certo de jamais voltar àquele lugar, prometi escrever um relatório oficial, para a corte real, a partir desse diário e solicitar minha dispensa do dever militar. Parece que meu imediato concorda comigo e decidiu que trilharia o mesmo caminho. O restante da marujada talvez eu jamais volte a ver, mas sempre rezarei por aqueles que pereceram nas garras daquelas criaturas malignas do gelo. Monstros assassinos invisíveis. Mas outra coisa me intriga. Quando perguntei aos marujos sobre o barulho de tambores, eles garantiram não terem visto nada, apesar de também ouvirem o som. Talvez uma conclusão aceitável seja a de que os tambores foram um aviso dos monstros de que iriam ao nosso encontro, como um grito de guerra. Isso, por si só, me é suficiente para conceber que eram inteligentes e até que viviam organizados, talvez em tribos ou outro tipo de organização primitiva. Jamais saberei ao certo. Só ficará na minha memória os urros ferozes e a violência com que destruíam os corpos de suas vítimas”.

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6 comentários:

Diógenes Daniel disse...

empolgante e muito bem escrito!

Wesley Felipe disse...

Nossa!
Estou lendo, e ateh agora estah muito legal!
Vc escreve muito bem!
Parabens!

¨Menina Cah¨ disse...

Oi...!

Eu também gostei muito dos seus contos, vou voltar sempre pra ler mais...

^^

Cezar Berger Junior disse...

Rapaz, Blog bonito o seu. Infelizmente só hoje fui ver seu comentário e seu pedido de troca de Links. Afinal, como membros da Escritores de Fantasia, temos de nos ajudar, não é?

Belíssimo texto o seu, vou correr pra ler os outros que perdi.

Por favor, pode adicionar meu Blog nos links do seu, que eu farei o mesmo agorinha. Até mais meu caro!

http://merafantasia.blogspot.com

Nômade Solitário disse...

De todos que li até agora esse foi o que mais me chamou atenção.

Parabéns!

karensoares disse...

Muito bom! Parabéns!

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