ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sempre uma brincadeira inocente


Para todos aqueles que ainda não
perderam seus filhos para uma arma.


A espada era pesada demais para ele brincar, mas, não a carabina. Queria insistentemente pegar a espada do pai para ir lá fora representar seus personagens fictícios. O garoto adorava fingir que golpeava feras e bandidos com pedaços de pau imitando o pai, seu herói, um soldado recrutado pelo comando militar em Tersia, a cidade do Jardim das Montanhas. O quintal dos fundos da casa dava direto em uma escarpa relvada aberta até o pé da montanha, cheia de árvores verdes e belas, com suas flores coloridas na primavera. O menino queria arrastar a qualquer custo a pesada espada para brincar no fundo de casa, mas a arma pesada recusava-se a permanecer empunhada nas mãozinhas do menino.

A carabina, com seus dois canos se aprumando imponente para fora do esconderijo onde o pai guardava a arma, estava mais fácil de ser carregada para fora. Pois bem, pensou logo em brincar de atirar em pumas e bandidos imaginários, talvez até algum soldado inimigo, como fazia o pai nas batalhas.

Agarrou a arma e pôs-se a andar para o quintal dos fundos. Foi logo para a árvore mais próxima, fingindo estar escondido, esperando o inimigo aparecer para ele começar a soltar seus “bam bans” para todo lado. E lá foi o pequenino, imaginando disparar contra as aves que passavam e contra os coelhos que se “arriscavam” a cruzar seu caminho, chamando-os de bandidos, inimigos e bruxos maus.

A tarde inteira o menino parecia deslizar por aquele relvado imenso em todas as direções, sempre em busca da próxima caça. O pequeno garoto desconhecia os mecanismos de uma arma de verdade, como o gatilho, a bucha de recarga, as esferas de aço que eram disparadas de dentro dos canos, ou mesmo a mira. O garoto sequer tinha ouvido o som de um disparo de arma de fogo antes, pois seu pai nunca a usava quando estava em casa; o menino apenas ouvia as histórias que as outras crianças contavam. Tudo o que ele fazia era correr para diversas direções, apenas apontando a arma contra os animaizinhos que instintivamente corriam do pequeno homem. O dedo do menino não se aproximava do gatilho da carabina, pois para ele aquilo não era interessante no momento, já que desconhecia o seu funcionamento.

Ao final da tarde, o menino foi embora para casa cansado de proteger seu reino imaginário, lutar contra feras e lobisomens ou guerrear contra um exército. Entrou em casa e sentiu o cheiro da comida. Sua mãe preparava um delicioso jantar no fogão de barro, onde a lenha crepitava vagarosamente, obedecendo a sua natureza inflamável. O garotinho entrou direto para o quarto, com intenção sorrateira de guardar novamente a arma do pai onde a encontrou escondida anteriormente. Mas não o fez. A curiosidade, que em quase todas as crianças é uma marca registrada, alcançou a superfície da mente infantil.

Mexendo com a arma, agora já sentado na grande cama de palha no quarto dos pais, o pequenino tocava os canos, enfiava o dedo dentro pra ver se saía algo, observava a mira. Até que naquela hora o cheiro de pólvora que vinha de dentro do cano lhe pareceu interessante a ponto de enfiar o pequenino nariz dentro do orifício. No mesmo instante, seus dedos acharam o gatilho. Aquela pecinha sinuosa de metal, como nas bestas de mão, lhe chamou a atenção.

Quando estava pensando no que podia ser aquilo, sua mãe entrou no quarto, procurando por ele para mandá-lo ao banho antes do jantar. Aterrorizada com o que viu, gritou tão alto que o menino se assustou e seu dedo, que curiosamente analisava o gatilho, acionou a arma. Um clic e, em seguida, sua mãe estava de joelhos no chão, coberta por uma palidez de desespero, agarrando a carabina das mãos inocentes do menino. Jogou-a para trás, contra a parede, e agarrou o pequeno nos braços, forçando-o contra seu peito e agonizando em lágrimas.

Alguns segundos de desespero foram sucedidos por uma constatação. O instinto materno a fazia temer soltar o filho, mas superando-o com todas as forças, ela o fez. Com o cabelo todo emaranhado devido ao abraço quase estrangulador da mãe, o menino estava bem, afinal. A arma não tinha sido deixada carregada. Um alívio ainda fraco para restabelecer à mãe sua cor e vigor de costume.

Ainda em choque, ela agora balançava o menino nos braços, cantarolando baixinho uma canção enquanto acariciava o filhinho vivo. Enquanto cantava, conversava com ele, dizendo para não mexer mais com “aquela coisa feia”, pois ela ficaria muito triste se ele se machucasse. Em sua cabeça, uma consciência agora se formava sobre o perigo de uma arma como aquela dentro de casa, ainda mais se estivesse carregada como o marido costumava deixá-la. O pequenino, envolvido por aquele abraço de mão, cheio de amor e medo, por um momento pareceu compreender, mas, certamente, esqueceria tudo na manhã seguinte. Naquela noite, ela e o marido tiveram uma conversa séria sobre o assunto. Como ele era um soldado e precisava ter a carabina em casa, a arma teria que ser mais bem escondida, caso o contrário, teria que ser levada dali a qualquer custo. Por uma semana ela não conseguiu dormir.

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2 comentários:

Feänor disse...

Conheci seu blog recentemente por meio de um comentário seu no meu blog, e devo lhe dizer que suas histórias são excelentes!

Conheci há tão pouco tempo que sequer comentei nele ainda, mas já li boa parte dos seus contos.

Você gosta de ler Terry Pratchett, Salvatore e Weis & Hickman? Senhor dos Anéis eu nem pergunto, já presumo que é de seu agrado... estou certo? (acabei perguntando rs)

Parabéns, cara! Meu sonho sempre foi ser um escritor de histórias fantásticas. Se eu pudesse ser alguém que não eu, provavelmente escolheria o Tolkien... Sou fã do cara! (ou o Neil Gaiman hehe)

Tenho um protótipo de mundo fantástico, mas não mexo nele há quase 1 ano... Preciso rever muita coisa, escrevi durante o cursinho - as aulas mesmo rs (dá pra ver porque não passei na usp hehe) - e não terminei de desenvolver.

Mas não creio que a minha história esteja no nível da sua...

Parabéns mesmo!


Aliás, aproveitando a passagem, tem um prêmio no meu blog pro seu. Caso você queira, passe lá para pegá-lo e colocar no seu blog!

Valeu cara! Abraço e Sucesso!

Duda Falcão disse...

Olá, Orfanik!
Li o seu primeiro conto e o último. Gostei bastante dos dois. O conto sobre as tabernas dá uma idéia muito boa daquilo que nos espera em Anerás. Como havia escrito antes, se Anerás osse um RPG, certamente eu gostaria de criar um personagem para sondar essas terras.
O conto do menino que brinca com uma arma é bem atual, nos reporta a própria socieddade brasileira e o problema do uso das armas. Muito Legal! Um abraço e até breve!

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