ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Você é o rei


O salão reluzia com a entrada do sol através das janelas do palácio. O magistrado, ouvindo a corneta de anunciação, adentrava o salão. Vinha apresentar ao rei os relatórios mensais da administração de Narca. Mas trazia também os pensamentos sobre os acontecimentos recentes, que desejava expor ao rei.
Imponente em seu trono, o rei aguardava a aproximação de seu fiel magistrado, administrador da mais importante cidade do reino.
— Você está diante do rei! — avisou a voz de um dos conselheiros, dando continuidade à diplomacia que o encontro exigia. — Ajoelhe-se em sinal de lealdade e apresente-se!
O oficial ajoelhou-se, entregando ao rei um envelope com o selo oficial de Narca. Era a prestação de contas anual que todas as cidades do reino deviam apresentar. Ainda ajoelhado, o magistrado pediu a permissão de dirigir a palavra ao rei. Quebrando o protocolo, o rei levantou-se e colocou a mão sobre o ombro dele.
— Levante-se, vamos! — ordenou o rei. — Somos amigos há anos, não precisamos de tanta cerimônia entre nós dois.
— Mas, apesar de meu velho amigo, você é o rei, Wobur.
— Eu sei o que sou. E nunca me esqueci de quem fui. Mas acredito que tem coisas mais importantes para me dizer.
O magistrado ficou em pé. Devidamente vestido com sua indumentária militar, assumiu sua postura de sentido.
— Majestade! Acredito que temos uma ameaça iminente pairando sobre Narca e talvez até sobre outras cidades do reino.
— Saiam! — ordenou o rei Wobur, virando-se para os conselheiros e guardas do salão. — Todos! Não quero ninguém aqui além de nós.
O rei era conhecido como Wobur, o severo, e não por falta de motivo. Voltando-se para seu amigo, pediu que continuasse.
— Como sabe, majestade, não sou um homem dado a viver o momento e me esquecer do futuro. E isso me torna bastante analítico quanto ao processo diário que nos envolve. Quando digo que tenho suspeita de que algo está para acontecer, é porque as histórias que chegam a mim, e um certo evento em Narca me fazem ver evidências que nem todos vêem. Evidências de que uma ameaça está crescendo e envolvendo a todos nós.
— O que, em Narca, te fez suspeitar de algo? — perguntou o rei.
— Bem, existem boatos de um certo necromante que andou capturando pessoas para lhe servirem de escravos.
— Mas são boatos, então?
— Por enquanto, pois as queixas de desaparecimento estão aumentando. E não preciso lhe lembrar o tipo de escravo que os necromantes costumam apreciar.
— Sim, claro. Mas o que você tem em mente?
— Com todo o respeito, majestade, não sou homem de arriscar palpites. Venho diante de ti para pedir uma comitiva investigativa em Narca. Precisamos saber quais os reais motivos dos desaparecimentos antes de agir por intuição.
— Mas não posso enviar ninguém para lá. Este reino está cercado de incompetentes que ririam de mim apenas se soubessem do que se trata.
— Ambos sabemos que a questão é mais séria do que isso.
— Sei disso, mas vai ter que cuidar disso com seus próprios recursos. — comentou Wobur.
— Mas... você é o rei!
— Mas o rei está de mãos amarradas. Traga-me evidências e tomarei alguma providência.
O magistrado pôs as mãos no rosto, deixando a posição de sentido e suspirando.
— Peço permissão para me retirar, majestade.
— Não precisa me tratar como o rei, estamos apenas nós aqui.
— Mas você é o rei! — respondeu.
O oficial saiu, sem falar com ninguém, andando rapidamente em direção à carruagem que o esperava no pátio do castelo. Entrou e ordenou a partida. Durante todo o caminho até Narca pensou no que podia fazer a respeito do mistério que cercava a cidade. Não se tratava de assassinatos, pois não havia corpos, também não era uma questão simples, do tipo que se envia soldados para dar um jeito. Teria que contratar mercenários.
.
..
...
....

2 comentários:

D.DARKANGELLUS disse...

Muito Bom,gostei!
Surpreendeu-me Tal Conto//

Nômade Solitário disse...

Adorei esse conto, me fez imaginar perfeitamente a conversa entre o rei e o magistrado e também me fez esquecer dos meus problemas.

Excelente conto, parabéns!

Pesquisar em Anerás