ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Escuridão plena

Tochas acesas clareavam o extenso corredor da velha masmorra. Construções subterrâneas em lugares próximos ao mar têm uma desvantagem: infiltração. A água salobra penetrava as paredes e escorria pelo chão, encharcando as botas metálicas dos soldados que atravessavam o corredor de aspecto infinito. Um grupo de quinze soldados havia sido enviado para rondar a velha masmorra em busca de uma possível ameaça que apavorava a população da pequena cidade. Diziam as pessoas que, ao cair da noite, um grito estridente era ouvido ecoando de dentro da antiga galeria de corredores e, como a cidade crescia em volta de um forte militar, o tenente responsável pela segurança da cidade decidiu que seus homens deveriam investigar o ocorrido.

Não que tal ocorrido fosse recente. Era, na verdade, bastante antigo. Mas sabiamente ignorado pela milícia local.

O grito causava pavor nos moradores do local, até ganhando uma conotação de toque de recolher. Ao ouvir o grito, geralmente após o pôr-do-sol, os habitantes se escondiam em suas casas e trancavam tudo. Até mesmo o forte adotou a postura de reclusão perante o costume do povo; ou será que até corajosos soldados temiam o que a noite pudesse trazer?

Mesmo se tratando de coisa que fosse medonha, o grito nunca causou outros males ao povoado, até que um dia uma mulher apareceu morta. Por mais que procurassem, não achavam explicação para a morte da mulher e, cada vez mais, a sabedoria popular apontava para a masmorra. Isso chamou a atenção do tenente local, que reuniu um grupo de quatorze homens e adentrou os caminhos sinuosos do subterrâneo.

Lá estavam eles, andando com água a cobrir os pés. Quinze homens, com uma tocha acesa para cada cinco deles. Bem armados, com espadas, escudos, lanças e bestas, caminhavam, com seu tenente à frente, num esforço sem igual, sentindo aquele corrente de ar úmido que vinha do mar e, bastante fraca, chegava até eles.

Não se pode dizer do tenente que tenha lhe faltado coragem, pois quando ecoou o grito ensurdecedor, manteve seus passos firmes, encorajando o resto da equipe. Na fraca iluminação das tochas, viu-se uma sombra deslizando pelas paredes, voando como névoa e cercando-os. A coisa, numa velocidade incomum, se adensou sobre as tochas e as apagou, deixando o corredor imerso em uma escuridão plena.

Tudo o que ecoou por aqueles corredores amaldiçoados foram os gritos dos homens à beira da morte. Não sabiam de onde vinham os ataques, mas todos morriam da mesma forma: com as gargantas dilaceradas por garras. Alguns ataques eram tão potentes que conseguiam decapitar. Ouvindo passos correrem em direção à saída, o monstro obscuro voltou para o interior alagado da masmorra, agora com seu sossego garantido e até um pouco de comida.

Que criatura era? De que tipo de monstro se tratava? Ninguém soube precisar. Mesmo porquê, apenas um homem saiu de lá com vida. Mas este homem deixou o povoado sem sequer se importar com suas obrigações militares ou seus pertences, guardados no alojamento de soldados, dentro do forte. Fugiu o quanto antes e deixou para trás um povoado amaldiçoado pelo medo.

.

..

...

....

Um comentário:

Berger, Cezar disse...

Poxa, obrigado pelo elogio. É bom saber que existem blogueiros que leêm meu Blog. Vou dar uma olhada no seu também!

Mais uma vez obrigado pelo comentário. Até mais meu caro! ;]

Pesquisar em Anerás