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segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O golem

— Socorro! Socorro! Ruddic, socorro!

Ruddic dormia quando ouviu os gritos do irmão lá fora.

— Socorro, Ruddic. Me ajude! Socooooorro!!!

Ruddic levantou-se da cama e vestiu seu velho roupão, meteu a mão em seu arcabuz e saiu para ver o que acometia o irmão.

Todas as noites Patric saía para caminhar no jardim de casa. Ele e Ruddic moravam na fazenda que os pais haviam deixado como herança. Não era uma propriedade grande, mas exigia alguns criados para ajudar em sua manutenção. No entanto, na casa, só dormia a criada, em um quarto nos fundos, devido aos seus afazeres domésticos matinais. Ela não seria de muita utilidade numa hora de desespero. O capataz e alguns ajudantes vinham todos os dias da cidade, antes do dia clarear.

Ruddic saiu e viu o irmão, de espada na mão, tentando se proteger do que parecia ser um enorme humanóide de madeira. Era, de fato, um lendário golem, um autômato, monstro animado por encantamentos desconhecidos. Imponente, com uns três metros de altura, muito ágil nos ataques e bastante forte. Era evidente que era forte por causa do estrondo e das marcas que ficavam no chão quando desferia um golpe contra Patric, que apenas se esquivava ou, quando possível, afastava com a espada.

— Ruddic. Me ajude — gritou Patric. — Ele saiu de trás das árvores e começou a me atacar.

Enquanto armava seu arcabuz, Ruddic viu o irmão desferir um forte golpe de espada que teve como alvo o braço do monstro. O golpe teria arrancado o braço de qualquer pessoa, por mais forte que fosse, mas naquele monstro de madeira, só resultou em uma rachadura. Foi um golpe impressionante, mas irrelevante para a tal criatura. Patric arrancou da cintura uma pistola de dois disparos e, desviando-se de mais um golpe, mirou e atirou no peito do golem, espalhando lascas de madeira no ar, mas só isso.

— Patric! Corre pra cá! — alertou Ruddic.

O irmão, desviando-se milagrosamente de mais um golpe, que teve sua cabeça como destino, arrancou em retirada, alcançando Ruddic na soleira da porta. O monstro, abrindo os braços em sinal de intimidação, avançou para a porta. Ruddic mirou e disparou o arcabuz contra o golem. A pederneira da arma faiscou e fez seu trabalho na pólvora, arrebentando um tiro no peito do golem. Mais lascas de madeira voando pelo ar. Porém, nada conseguia parar o monstro determinado. Os irmãos fecharam a porta e seguiram para a sala de estar, onde costumavam se sentar após as refeições para fumar e conversar. Era um salão amplo, com poltronas velhas, pinturas de parentes penduradas nas paredes, um tapete no centro, uma lareira, com restos de brasa ainda incandescente, e uma pequena mesa com algumas garrafas descansando sobre a madeira envelhecida.

Ruddic teve uma idéia e a explicou ao irmão. Iriam lá fora e jogariam uma garrafa de sua bebida mais forte no monstro, em seguida arremessando sobre a criatura um toco em brasa da lareira para incendiá-lo. Mas ao terminar de explicar isso a Patric, ouviram o baque ensurdecedor do golem atacando a porta e colocando-a por terra.

— Tarde demais! — afligiu-se Patric.

— Não, não é. Pegue a garrafa e eu saio com a lasca de madeira em chamas. Vamos. Temos que atraí-lo para fora, não podemos queimar a casa toda.

Não foi fácil voltar a encarar o monstro, mas Ruddic e Patric fizeram o que estava ao alcance para salvar suas vidas. Ao voltar para a porta da frente, viram o golem tentando entrar na casa, mas como era muito alto, havia parado para arrancar pedaços da casa para poder avançar. Ruddic, ao ver aquilo, armou mais uma vez seu arcabuz e combinou com Patric para atirarem juntos, aproveitando que o monstro se via ocupado com as paredes. Atiraram ao mesmo tempo, fazendo o golem cambalear para fora da casa. Viu-se, em seguida, uma garrafa voar porta afora, acertando em cheio o peito do alvo, estilhaçando e espalhando o álcool sobre a criatura. Ruddic saiu correndo pela porta, para evitar que o golem voltasse a entrar na casa, mas viu que o golem tentou ainda ir atrás de Patric.

Aproximando-se por trás, tocou o monstro com a madeira chamejante da lareira, ateando fogo ao tronco da criatura. O fogo se alastrou rapidamente, pois o golem era feito de madeira seca, e o álcool havia sido absorvido por ela. Talvez por isso era tão raro essas criaturas serem confeccionadas em madeira. Num instante, o monstro ardia em chamas, tentando escapar dos irmãos que agora dirigiam todos os seus esforços em impedir que o monstro fosse embora, deixando-o queimar andando em círculos. Patric tomou a espada nas mãos e começou a golpear o golem nas pernas, com intenção de derrubar e frustrar uma tentativa de fuga. Após alguns golpes desferidos com boa dose de força, Patric arrancou uma das pernas, fazendo-o desequilibrar-se e cair, já bastante destruído pelas chamas.

Era o fim, pelo menos para aquela noite. O golem se consumia no fogo e Ruddic e Patric agora assistiam, cansados do combate. A criada, assustada, com muito esforço conseguiu chegar à porta para ver o monstro ser aniquilado.

— O que mais me incomoda é não saber o motivo de ele ter ido atrás de você — comentou Ruddic. — Ele queria algo e era com você.

— Pare com isso — pediu Patric. — Essa idéia me assusta.

— Mas é uma coisa que devemos investigar, pois pode voltar a acontecer.

— Tenho medo. Por nós dois!

— É... — comentou Ruddic, olhando para um caco da garrafa no chão. — Quem tinha coragem de beber isso aí, hein?

Ficaram lá, sob o sereno, até a chama se extinguir, certificando-os de que não havia mais perigo. Mas antes de entrarem, Ruddic andou em volta da casa, para se garantir de não haver mais nenhuma surpresa para aquela noite.

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