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terça-feira, 21 de agosto de 2007

O carvalho - A história de Calsta - Parte I

A escuridão plena era quebrada apenas pela fraca luz da tocha que carregava. Trazia o pequeno filho em sua bolsa de colo, agarrado ao seu pescoço. Era uma mulher de coragem, se esquivando entre as árvores, buscando abrigo contra os ladrões que a perseguiam. Covardes! Invadiram sua casa e mataram seu marido. Agora caçavam a ela e a seu filho na densa escuridão da floresta. Vinham, com suas espadas e facas, contra uma mulher que trazia apenas um filho no colo.

Quando criança Calsta aprendeu a andar por aquelas trilhas e sabia bem onde havia bons esconderijos. Coisa de criança, mas que agora lhe serviria de alguma forma. Já cansada de tanto andar, cortando seus pés descalços em pedras e galhos, com seu pequeno no colo, pensou que era hora de parar e se esconder em uma cova sob as raízes de um enorme carvalho que existia ali perto. A árvore era tão antiga que sua avó dizia que já estava ali quando era criança e veio morar na região. Dentro da cova cabiam duas pessoas e, para ela e o filhinho não havia esconderijo melhor. Brincava ali quando era menina, e agora o abrigo lhe servia de esconderijo.

Entrou pela fresta do tronco da árvore e deitou o filho no chão. Precisava manter a cabeça fria se quisesse garantir sua sobrevivência e a de seu filho. Pensou por um momento. Saiu e fez um caminho em zigue zague, para despistar os ladrões. Andou por um bom tempo, voltando no mesmo lugar várias vezes. Então entrou na fresta da árvore, limpando seus rastros do local próximo, e apagou a tocha, enfiando-a na terra úmida.

O plano deu certo. Os ladrões ficaram desorientados com vários rastros que iam e vinham em diversas direções e, passado um tempo, desistiram da caçada e voltaram para roubar o que restava na casa. Horas se passaram até que ela decidiu sair e tomar o rumo da estrada. Encontrava-se determinada a viajar até a cidade, para tentar encontrar seus parentes e contar o que aconteceu.

Conseguiu transporte na carroça de carga de um mercador que se comoveu com sua história e a ajudou a tratar do pequenino que carregava. Dias antes de chegar na cidade, o mercador a avisou que parariam em uma fazenda, onde abasteceriam suas provisões para prosseguir pela estrada. Calsta, ao descobrir que a fazenda era de um respeitado guerreiro, cujas histórias o haviam tornado lendário, hábil em armas e estratégias, poderoso em combate, abandonou sua intenção de ir à cidade. Quis ficar e aprender a lutar. Ofereceu trabalhar na fazenda em troca de treinamento e comida para ela e o filho.

Por mais ordinária que possa ser a vida de alguém, as pessoas tendem a vivê-las, conformadas. Entretanto, quando algo abominável ocorre, algo além dos limites do suportável, muitos tomam para si como missão pessoal reparar o dano causado. Essa era a chama que ardia no olhar de Calsta.

Um pouco receoso, o velho guerreiro aceitou, mesmo se tratando de uma mulher. Para os guerreiros, mulheres não serviam para empunhar armas e vestir armaduras, mas aquela, ele podia sentir, parecia ter uma motivação especial. A mais simples das motivações, capaz de incitar os homens contra os deuses: a vingança.

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Um comentário:

Victor disse...

gostei muito do texto, narração bem interessante, incita o leitor a voltar e tb a ler os post anteriores. parabéns

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