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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Fuga

Cavalo em fuga. Era assim que muitos viam a situação em que se encontrava aquele cavalo. “Viam” era um modo de dizer, pois a velocidade do animal era tamanha que, vê-lo, naquelas circunstâncias, parecia privilégio. Era um animal lindo, esplêndido e corria muito, muito mesmo. Atravessava campos de trigo como se fossem tapetes especialmente feitos para o seu galope. Rajado, alto, portentoso, corria. Corria sem parar.

Atrás do extraordinário animal vinham outros. Cinco outros cavalos tentavam acompanhá-lo, é necessário que se diga, com muito esforço. Os cinco cavalos traziam sobre eles, cinco homens e esses, por sua vez, traziam consigo cinco cordas em laço. Cavalgavam como loucos atrás do belo animal.

O cavalo a ser capturado era selvagem, nunca havia sido montado antes e, pelo visto, continuaria não sendo. Os homens tinham muita dificuldade em chegar perto do arisco cavalo selvagem. Sem mencionar que cavalos com montaria correm menos que cavalos sem montaria. Isso era bastante claro, dada a distância crescente entre perseguido e perseguidores.

O que acontecia na verdade era que um famoso ladrão havia colocado preço na captura do cavalo mais veloz da região. E todos sabiam que cavalo era esse. Ladrões precisam de fuga rápida, bem sabemos, então nada melhor que um excelente cavalo selvagem para deixar para trás qualquer milícia, real ou provinciana. A questão é que muitos tentaram capturar o belo animal, mas ele já estava começando a ficar bom na arte de escapar dos caçadores.

Correndo por entre os prados de trigo, o cavalo deixava uma linha de trigo deitado, que, logo atrás, era expandida pelos outros cavalos que o perseguiam. A distância aumentava, a cada galope ela crescia. Centímetros, mas crescia. Num determinado momento, em campo aberto, enxergando um conjunto de árvores adiante, um dos caçadores arremessou o laço, que enroscou na cabeça do animal. Não teve sorte o suficiente para prendê-lo, mas quando começou a frear seu cavalo, quase caiu, puxado pela força do cavalo selvagem. A sela presa ao cavalo arrebentou, jogando o cavaleiro ao chão e levando-o arrastado por alguns metros, até que a corda se soltou quando o cavaleiro bateu de encontro com uma árvore. A morte foi rápida, mas não sem dor.

O belo animal fez uma curva para a esquerda, passando as árvores e descendo uma encosta que terminava em um riacho raso, de águas cristalinas e repletas de cascalho no fundo. Os caçadores forçavam seus cavalos além da capacidade dos animais, levando-os a um estado de frenesi descontrolado.

Uma das montarias não agüentou o esforço exagerado, pois já corriam há um bom tempo, e caiu, derrubando seu cavaleiro e permanecendo deitado, exausto, no campo de trigo. Os três caçadores restantes quase não conseguiram atravessar o riacho no encalço do cavalo selvagem, que subiu a encosta do outro lado como se estivesse em terreno plano. Na verdade, para ele parecia não haver distinção entre subida, descida ou terreno plano. O cavalo apenas corria, sem diminuir o ritmo.

Diante deles se desenrolava um cenário vasto e retilíneo, onde se via muitas plantações, algumas novas outras prontas para serem colhidas. Poucas árvores quebravam a harmonia do terreno devastado para plantio. O cavalo selvagem não conhecia fronteiras e seguiu correndo sem descansar, até que conseguiu deixar mais dois cavaleiros para trás. Agora faltava apenas um, que continuava, persistente, no encalço do animal majestoso.

Quanto mais corria, mais majestoso parecia e mais revelava a prepotência dos outros cavalos, que já entregaram os pontos há muito tempo. O último caçador que restava, sabia que, em campo aberto não conseguiria capturar o cavalo selvagem. Antes que a distância aumentasse, arremessou o laço, apenas para não pensar que não havia tentado. Mas, como já imaginava, a laçada falhou, o cavalo selvagem disparou, aumentando a distância e o caçador freou seu animal, agora exausto e ofegante, ensopado de suor.

Tudo o que restou a ele foi observar a grande chance de conseguir um bom dinheiro escapar para longe, talvez para nunca mais ser visto por aquelas bandas. O fabuloso animal dava a impressão, aos que o viam passar, de que sua energia não exauria com o passar da corrida. Cada vez aumentava mais. Era mágico, pensavam uns. Veio do próprio inferno, pensavam outros. E havia aqueles, ainda, que apenas admiravam a benção da natureza em forma de animal, atravessando campos e vales, sem parar, sem jamais diminuir a velocidade, até desaparecer no horizonte.

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5 comentários:

Sydney Fox disse...

Nossa estou encantada com a qualidade dos contos! Parabéns ao autor!
Hahahaha concordo com o autor quando ele diz:

uma taverna, vista de fora, segue sempre um padrão: gritaria, bebedeira e, em alguns casos, cantoria.(...)

(Apesar de nunca ter estado em uma, imagino que seja assim mesmo!)

Enfim... Parabéns e continue a escrever!

Beijão da Syd!

Orfanik K. disse...

Obrigado pela consideração...
Espero que continue lendo as histórias.

Caio Tadeu de Moraes disse...

Parabéns Orfanik, mais um ótimo conto...


Rs, acho que já está na hora de expandir o mundo de Áneras, criar a geográfica, bestuário, deuses, etc...


Está ficando muito bom =D


Continue escrevendo. Abraços.

Orfanik disse...

Valeu, Caio, estou realmente pensando nisso...

um mapa eu jatenho, mais ou menos...

vamos ver no que dá!

Rafael disse...

Um mundo novo.. essa é uma boa idéia.. Criar de vez o mundo de Anerás... e depois publicar em uma editora, não é uma ideia dificil, só depende do nivel de vontade...

Escrever bem vc já escreve, Criatividade vc já tem...
Acho que é um bom começo

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