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terça-feira, 21 de julho de 2015

Meus contos na Amazon

Com muito orgulho e, após muito tempo e dedicação, tenho alguns contos publicados na Amazon, para o concurso Brasil em Prosa (#brasilemprosa). Como diz o antigo ditado, a gente cria filho para o mundo. E é mais ou menos dessa forma que encaro meus trabalhos, como filhos que botei nesse mundo. Tenho grande carinho pelo que faço, pois, antes de fazer para as pessoas lerem, faço para mim.
Um imenso obrigado aos que baixarem ou divulgarem meu material. Abraços!

Eis os links para meus contos. Uma vez ao mês eles estarão a custo zero. Bora baixar?



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Giorn - Parte II – Luta por liberdade

Amanhecia lentamente no interior da floresta, fazendo Giorn a se mover com mais cautela e, por vezes, se esconder quando ouvia um barulho, o que o impediu de voltar para ajudar o estranho. Mas não sabia estar perto do local. Agachado, com a besta em punho, aguardou o barbudo aparecer com a “comida”, pois, após tanto tempo, já sabia a hora em que ele vinha trazer aquele humilhante banquete. De trás do arbusto onde ficou aguardando viu o homem passar distante e, minutos depois, retornar, bufando violentamente.
Mesmo afastado como estava, ele pôde ouvir o barbudo gritar com alguém, talvez o homem da outra cela, ou outro alguém, também cativo. Ele perguntava, esbravejando, onde estava o outro prisioneiro. Se o cativo teve contato com ele, se falou alguma coisa. A resposta do cativo foi negativa para todas as perguntas, mesmo tendo sido visitado durante a noite. E o pirata reconheceu a voz do homem aprisionado.
O barbudo avançou trilha a fora, gritando aos ventos que hoje teria vendido Giorn, indo em direção à velha árvore onde escondia a besta. Aproveitando a proximidade, o pirata saiu de trás do arbusto e ficou imóvel, visível ao captor. Ele ficou surpreso pois já imaginava, na atual circunstância, que Giorn tivesse fugido para longe e procurado um jeito de sair da ilha. Surpreso, mas não assustado. Lá estava o pirata, de pé a uma distância razoável, encarando o sequestrador, que não viu em suas mãos a besta, oculta pelos galhos do arbusto.
A reação imediata do grandalhão foi partir para a captura com as mãos limpas, considerando-se mais forte que o pirata, e com razão. Era mais alto e devia pesar quase o dobro de Giorn. Mas quando se aproximou, viu-se sob a mira de sua própria arma. Sem nenhum dos dois dizer uma só palavra, a luta começou. Giorn disparou contra o barbudo e o acertou no ombro. Mas o homem era forte e seguiu para cima dele, correndo. Foi o tempo necessário para recarregar a besta e, sem qualquer mira, disparar já com o grandalhão em cima dele, voando em seu pescoço. A seta seguiu direto na barriga, mas não penetrou muito. Os dois rolaram no barro, lutando com socos e chutes, numa desesperada busca pela vitória, que naquele momento tinha o significado de liberdade para um e lucro para o outro. Um motivo a mais para o náufrago se sentir obrigado a vencer, mas recebeu um golpe no queixo que estremeceu suas pernas.
O barbudo, ofegante, agarrou a besta e deu um golpe com o cabo na testa do pirata, atordoando-o ainda mais. Mas, quando ia receber o outro golpe, seus olhos se arregalaram. Giorn viu, atrás do barbudo, o outro prisioneiro, com uma pedra na mão, golpeando-o na cabeça. O inimigo caiu apagado sobre o corpo de Giorn, que teve uma certa dificuldade em remover o peso que o prendia, dificuldade resultante de um belo soco no queixo e de uma coronhada de besta na testa, além de estar fraco por causa da luta engalfinhada. O outro prisioneiro ainda golpeou a cabeça do homem caído outras vezes, garantindo sua morte.
Giorn, bastante cansado, conseguiu se levantar com a ajuda do seu novo companheiro.
— Lembre-me de nunca ser seu inimigo, hein! — comentou, metendo a mão na testa, sobre a ferida. — Agora temos que achar um jeito de sair desse fim de mundo.
— O comprador de escravos é a nossa saída daqui — afirmou o outro prisioneiro. — Aliás, me chamo Housso, sou cartógrafo marítimo e espadachim.
— Eu sou Gionr, ex-capitão de uma gloriosa tripulação de saqueadores dos mares naufragada aqui perto. E, ao que tudo indica, sou o único sobrevivente. Mas será que não tem mais daquelas jaulas asquerosas espalhadas por aí?
Housso começou a gritar, procurando outros prisioneiros, andando para vários lados do campo onde estavam. Giorn achou boa a ideia, talvez encontrasse algum membro de sua embarcação, e começou também a procurar por outros cativos. Decidiram procurar apenas naquela manhã, para evitar surpresas com o comprador de escravos. 
Os dois descobriram outras celas como as deles, todas com um homem dentro, esperando para ser vendido. Giorn teve a satisfação de encontrar dois dos seus bucaneiros, além do seu imediato. Juntando isso ao resto dos homens que acharam até o fim do dia, o pirata já tinha uma pequena tripulação formada. Todos determinados a escapar dali, mesmo que precisassem lutar contra uma armada inteira. Era assim que a vida fazia sentido para Giorn, o pirata. Ele, Housso e o imediato decidiram seguir a trilha que chegaria, imaginavam eles, na casa onde vivia o captor, logo após um riacho e uma encosta que visualizavam quando saíram da floresta. Lá certamente encontrariam armas, comida e bebida, além de um lugar adequado a um descanso e uma emboscada para o comerciante de escravos.

A paisagem matinal se desenhava diante deles, com um vale de capim verde claro dançando ao vento na encosta que precedia a montanha. Após cruzarem o pequeno ribeirão e chegarem ao topo da encosta, outra floresta se esparramava até o cume de uma montanha e, um pouco acima do seu sopé, uma clareira com uma casinha de chaminé ainda deitando fumaça podia ser vista. Era, sem dúvida, o local onde viveu o homem que os manteve em cativeiro. Talvez encontrassem comida decente e armas por lá, talvez não. Mas aquilo não importava no momento. Estavam animados, cantando velhas canções dos mares, e esvaziando a garrafa de rum encontrada por Giorn. Desenhava-se diante deles a oportunidade perfeita para aguardar o comprador de escravos e escapar daquele lugar para sempre.
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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Giorn - Parte I – O cativeiro

Era um local deserto, bem afastado de alguma cidade ou sinal de civilização. Daquele ponto, quem olhasse para os dois lados da praia, só veria areia, árvores e mar, sob um luar limpo e pleno. Destroços de um navio iam e vinham arrastados pelas ondas. Nada que pudesse ser aproveitado. Giorn, porém, não podia notar o vai-e-vem das ondas no momento, nem os destroços, nem as árvores ou a lua. A água batia em seu corpo caído na areia em intervalos irregulares, mas ele também não a sentia. Estava desmaiado e assim permaneceu um bocado de tempo, mesmo após o sol surgir no horizonte, e só mais tarde deu sinal de vida. Lentamente começou a despertar e, com as costas queimadas num sol quase vespertino, vislumbrou a praia onde se encontrava. Praguejou. A areia era tão clara que chegava a ferir seus olhos. Tentou se levantar para analisar melhor sua situação, mas alguma coisa o impediu de fazê-lo. Uma sombra projetada na areia fez com que olhasse para cima, pois se tratava de uma sombra humana e disso ele não tinha dúvidas, por mais atordoado que pudesse estar.
Um rosto barbudo, sorridente e banguelo foi o que encontraram os olhos de Giorn.
— Merda! Quem... — Foi tudo o que Giorn conseguiu dizer.
Com um golpe de porrete, o infeliz náufrago voltou a ficar desacordado.

Sentindo lama sob suas costas, ele acordou de novo. Aquele barro gelado era um alento temporário às queimaduras de sua pele. Tendo novamente o controle de seu raciocínio, tocou a testa onde doía e notou um pouco de sangue ainda saindo do local da pancada. Olhou ao redor e, numa primeira análise, se viu em algum tipo de jaula rudimentar. Era uma prisão feita de troncos de bambu, entrelaçados por cipó e corda. Rudimentar, mas bem construída e suficientemente resistente para evitar a fuga de um prisioneiro sem uma faca ou qualquer objeto cortante. O chão do cativeiro estava praticamente inundado e, a julgar pelas gotas de água caindo das folhas das árvores, parecia ter chovido muito e há pouco tempo.
Plop! Um barulho na lama fez Giorn se virar. Um amontoado de minhocas agora se encontrava ali, diante dele, dançando sobre o chão de terra da jaula. Elas se contorciam e se espalhavam por toda parte. Pequenas como eram, podiam transpor com facilidade as frestas da jaula, algo muito invejado por Giorn naquele exato momento.
— Não deixe que escapem! — ressoou uma voz rouca escondida atrás das árvores.
Giorn tentou descobrir de onde vinha a voz, mas sem sucesso.
— Olha só. Elas tão indo embora. Só te servirei mais amanhã!
Um asco imediato tomou conta de Giorn. “Te servirei mais”? Que diabos de história era aquela? Será que queriam obrigá-lo a comer as malditas minhocas? Por um longo tempo, Giorn gritou, espancando as grossas grades de bambu, enquanto as criaturinhas rastejantes escapavam pelos vãos da jaula. Não obtendo mais resposta para seus gritos e golpes, Giorn foi sentar-se em um canto da prisão.
Por três dias jogaram vermes em sua jaula, aconselhando-o a comer, dizendo não haver na ilha mais nada além daquilo. “Ilha”. Foi a palavra gravada na mente do náufrago aprisionado e a qual ele fez questão de não esquecer. No quarto dia bebendo água suja, que escorria pela parede de terra do fundo da cela, ele cedeu, se viu obrigado a ingerir as minhocas e outros vermes jogados por quem ele acreditava ser o homem barbudo que o golpeara na praia. Se não comesse, pereceria sem energias e não teria como pôr em prática o plano que se formava em sua cabeça.
O náufrago passou oito dias trancado, sendo alimentado com o que o suposto barbudo encontrasse na floresta. Com sorte, chegava uma ratazana morta para a refeição. Certa noite, Giorn foi acordado por uma luz que inundava a cela. A voz do seu captor vinha de trás daquele facho de luz. Sim, era ele. Finalmente conseguiu distinguir a silhueta do homem de barba longa apesar do facho luminoso direto em seus olhos. Parecia carregar uma besta de mão. Também pôde distinguir um segundo sujeito, coberto com um capuz. Conversavam sobre preço e a mercadoria, indubitavelmente, era ele. Ouviu toda a conversa, desde a barganha até o trabalho para o qual ele seria comprado. Era um comércio de escravos e, se o barbudo negociava Giorn, isso indicava haver no local mais cativos como ele. Quando a luz se foi, Giorn pôs-se a fazer o que havia começado na madrugada anterior. Escolheu a madrugada por ser um período do dia, imaginava ele, em que não seria incomodado.
Cavou a noite toda, até amanhecer. Como o chão era mole de lama, por causa da água da chuva, o volume não fazia muita diferença aos olhos do carcereiro, incapaz de ter uma noção de que o chão no fundo da cela subia a cada dia, a não ser que entrasse lá. Coisa que ele certamente não faria e isso trazia certo conforto ao cativo. Sem falar que o buraco sob as grades era escondido pelo volume de água suja que vertia do barranco em volta da cela quando chovia. Naquela região, em alto mar, era quase certo chover ao menos duas ou três vezes na semana, sendo assim, a jaula de Giorn vivia com água em um dos cantos, facilitando o disfarce, e, naquela madrugada, após ter cavado mais um cansativo volume de barro, ele conseguiu escapar do cárcere.
Não se resignando a fugir pela floresta densa, quis a vingança. Giorn era um pirata, vingança corria no seu sangue e ele iria atrás do homem que o trancou e o alimentou com vermes: o barbudo banguelo e sorridente, que o negociara com o encapuzado. Sem contar que, de um modo prático, não imaginava como poderia sair da ilha se o homem soubesse de sua fuga noturna, portanto, devia matá-lo. O náufrago caminhou através dos arbustos, procurando alguma coisa com que pudesse bater em quem se aproximasse; uma vara, galho de árvore, ou outra coisa de fácil manuseio. Depois de tanto tempo encarcerado, a lua havia desaparecido e estava difícil seguir por entre as árvores apenas com a tímida claridade das estrelas, quase coberta por nuvens trovejantes vindas do horizonte. Há alguns metros de onde estivera preso, Giorn caiu, escorregando para dentro de outro barranco, até um pouco semelhante ao que comportava sua jaula. Era outra cela de bambu.
Conseguiu ver ali dentro outro homem, mas fez de tudo para não acordá-lo, temendo que o prisioneiro gritasse em alerta aos seqüestradores, talvez por uma oportunidade de se dar bem ou algo assim. Mas não conseguiu manter silêncio por muito tempo. O estranho falou com ele ao acordar com o barulho do escorregão.
— Não precisa se assustar — comentou ele, murmurando. — a cabana daquele maldito fica longe.
— Como sabe que não sou um deles? — perguntou Giorn.
— Porque estou aqui há tempo o suficiente para saber que o homem da barba trabalha sozinho. E que só vem aqui o comprador de escravos, mas nunca desse jeito que você apareceu, escorregando pelo barranco. Então posso concluir que você era um cativo e escapou. E agora vai me ajudar a sair daqui.
— Preciso ir atrás do maldito que me prendeu aqui!
— E o que você pretende fazer quando o encontrar?
— Pelos diabos, vou matá-lo!
— Então me solte e eu te ajudo.
— Cave, homem! — Aconselhou Giorn, apontando para um canto da cela. — Cave perto da água, formando uma poça, ele não vai perceber vendo de fora da jaula. Depois eu volto para te ajudar, preciso achar uma arma. 

Giorn saiu, ouvindo atrás de si o homem iniciando sua empreitada de liberdade. Ele até poderia ajudar a cavar, mas não queria ficar ali e ser surpreendido. Rastejou para todos os lados daquele matagal, procurando um local onde pudesse haver água e comida, como um alçapão, talvez. Se a cabana do sujeito não era tão perto, então ele devia ter um pequeno esconderijo de mantimento. O pirata precisou tatear por muito tempo em uma trilha na mata, mas encontrou o que queria. Sob as raízes de uma árvore gigantesca e velha, o barbudo guardava uma garrafa de rum e também a besta de mão. Um sorriso confortante atravessou seus lábios. Havia somente duas setas no estojo, mas para ele era mais que suficiente, era perfeito. O jogo havia mudado. Tomou o rum e voltou para procurar a jaula do outro prisioneiro. Começou a chover durante a noite, e Giorn pensou que aquilo só podia melhorar as chances do seu novo companheiro. A floresta cessou seu barulho noturno e deu lugar ao barulho da água caindo sobre as folhas e a terra. A água caiu torrencialmente durante pouco tempo. O próximo passo eram os mosquitos, vampiros da noite que se levantam à procura de sangue quando finda uma chuva. Ainda havia trabalho a fazer, se quisesse preparar uma emboscada. Bebeu mais um gole e sorriu novamente, praguejando e se pondo a andar em seguida. A garrafa estava bastante cheia, e isso o deixava ainda mais animado com a reviravolta na sorte.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Noites no gelo - Parte 4 - Ajuda a caminho


Rastros contínuos trilhavam a neve em um caminho que se perdia de vista. Seguido por um homem a cavalo, o velho, também usando uma montaria cedida pela estalagem, acompanhava o cavalgar ligeiro. Na outra montaria seguia um homem alto e de ombros largos que se revelou um minerador da região, numa conversa que vinham tendo pelo caminho. A cavalo eram capazes de cobrir maior trajeto em menos tempo e, com a ajuda dos deuses, podiam ter uma chance de encontrar os companheiros com vida. Mesmo desacreditados dessa possibilidade, deviam continuar. Era uma obrigação, até mesmo para enterrar os corpos caso fosse necessário.
Andaram o dia todo, parando a cada três ou quatro horas para descansar os animais, uma precaução importante se quisessem continuar o caminho montados. Cada parada durava cerca de meia hora, não variando muito esse tempo. Descanso para eles, mesmo o velho dando sinais de esgotamento físico pela noite sem sono e caminhada ininterrupta, era só quando os animais descansavam. Ademais, o frio intenso e a neve fina que caía afastavam qualquer possibilidade de um repouso eficiente.
Preocupado em chegar rápido, o grandalhão encorajava o velho a manter o pique, que já parecia abandoná-lo.
Ia chegando a noite. O dia sem sol terminava, levando consigo a fraca claridade que proporcionava segurança aos cavaleiros, obrigando-os a acenderem tochas para enxergarem o caminho. Percorriam a galope a tímida estrada que dividia espaço com as imponentes montanhas alvas que, em raros momentos, davam a chance de uma ou outra árvore mostrar seus galhos sobre a neve.
Percebendo os sinais de cansaço dos cavalos, o robusto lenhador ia alertar o velho da necessidade de fazerem uma parada, mesmo que curta, quando viu algo na estrada. Rompendo o padrão branco do cenário, uma mancha escura sob a neve da estrada chamou sua atenção. Apontou para o chão à frente, dirigindo para lá o olhar do exausto velho sobre o cavalo. Golpeando os animais, correram para a mancha o mais rápido possível.
Terrível e dolorosa visão tiveram os solitários cavaleiros ao se depararem com dois corpos ressequidos e contorcidos. Um deles deitado, como se estivesse desacordado no momento do ataque e o outro, ajoelhado, debruçado sobre o primeiro, talvez numa vã intenção de proteger o companheiro do mal que se lançava sobre eles. O velho reconheceu pelas roupas os companheiros de viagem. Caído na neve, e sem expressão no rosto, estava o homem com quem viajara por anos e, em cima ele, como se fizesse um casulo protetor, o novato debruçado. Em sua face óssea e sem vida, um brilho de horror nos olhos miúdos. O último registro do ataque dos Vultos da Neve.
Por um instante o velho orou aos deuses, em honra às vidas perdidas pelos amigos. Em seguida combinou com o outro homem de enterrá-los na neve, ali mesmo, no lugar onde morreram. O lenhador convenceu o velho a irem embora com os cadáveres para enterrá-los durante o dia, protegidos de possíveis ataques. Com o pesar angustiando os cavaleiros, mais ainda o velho, eles envolveram os corpos em cobertores e os amarraram às selas dos animais, montando e partindo sem demora.
No dia seguinte, enterraram os amigos de viagem.
Dor e culpa acompanharam aquele homem cansado e velho. Dor e culpa consumiram gradativamente sua vida depois do fatídico inverno, sem abandoná-lo um dia sequer. Eram como partes de sua alma, de sua vida; partes que o mantinham vivo apenas para que sofresse. Apesar de dia após dia ter desejado morrer o mais cedo possível, viveu por vinte anos, como um castigo dos deuses, condenado a suportar a culpa de ter deixado, além do amigo, um rapaz tão novo perecer nas mãos de criaturas sombrias. Nunca teve um instante de paz até o último dia de sua vida triste e nula.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Noites no gelo - Parte 3 - Escapando?

Voltara a nevar, mas com pouca intensidade, e o jovem largado ao próprio destino tentava manter vivo o amigo próximo à fogueira. E agora? Ficar ali e esperar o socorro que o velho tinha ido buscar, ou tentar o retorno pelo mesmo caminho, com o amigo apoiado nos ombros? Já ia escurecer e permanecer mais uma noite no mesmo lugar não era exatamente uma atitude segura e a neve caindo logo prejudicaria o rendimento da fogueira. Ainda que com muitas dores na barriga, a recuperação do ânimo por parte do homem ferido dava uma nova esperança aos dois. Podiam partir, se quisessem, mesmo indo devagar. Como o ferimento não era incapacitador, eles decidiram voltar ao encontro do terceiro integrante do grupo.

O final de tarde ia deixando o lugar para trás, forçando os viajantes a retornar pela trilha ao posto de repouso, a estalagem na beira da estrada. Mesmo sendo castigados por ventania e neve rala, a viagem de volta era imprescindível.

Apagando a fogueira, mas mantendo uma tocha acesa, eles partiram pelo caminho por onde vieram, cortando a neve que congelava os ossos nas pernas. O novato ia carregando, conforme conseguia, seu amigo nos ombros e, mesmo ele sendo grande e pesado, era preciso continuar suportando seu peso para terem alguma chance de escapar com vida. Demorariam muito para percorrer um espaço de meia légua, mas se entregar depois de tantos obstáculos superados, estava fora de questão. Determinação e medo falavam mais alto.

— Atento... — murmurava o homem semiconsciente. — Sombras... Neve.

Mas o jovem nada via nas encostas da montanha. Por mais que quisesse, ficando parado por uns instantes a observar, não enxergava movimentação de manchas escuras nem brilhos vermelhos na imensidão branca. Considerou que o mais importante era continuar e, de qualquer modo, seu amigo podia estar delirando. Arrastaram-se por mais de duas horas, deixando para trás duas linhas sulcadas na neve, indicando o destino dos viajantes desprotegidos.

Alguns sussurros foram ouvidos atrás dos dois e o mais jovem, tão rápido quanto pôde, virou-se para checar se eram seguidos por aquelas coisas. Aparentemente, só o vento silvando cruzava aquele corredor branco. Mesmo não tendo constatado presença alguma, o jovem decidiu que era melhor irem mais rápido. Alertou o amigo para a situação.

— Temos que correr. — disse o rapaz para o amigo ainda meio atordoado.

— Vamos — respondeu o homem. — Vou tentar, é preciso.

Reunindo as últimas forças que restavam, o mais velho pôs-se a correr, com as mãos tapando o ferimento, seguido pelo novato carregando a tocha, que não queria se adiantar e deixar o outro muito para trás. Caso ele caísse, o rapaz não teria como saber a uma distância longa. E o motivo dessa preocupação se materializou. O homem ferido caiu, esgotado, depois de poucos segundos correndo. Desesperado, o jovem não sabia o que fazer, quando percebeu estar cercado de sussurros por todos os lados e, apurando melhor a visão da área, notou leves brilhos vermelhos se destacando atrás de árvores velhas cobertas de neve, ou em fendas no gelo, nas encostas da montanha. E eles se moviam.

Certamente eram os Vultos que iam na direção deles, deixando à mostra suas formas escuras como uma fumaça preta, mesclados a sombras no ambiente. Eram muito rápidos e, em instantes, um pequeno grupo se formava ao redor do jovem desesperado e seu companheiro desmaiado. Recorrendo a um último lampejo de razão, o rapaz teve a imediata reação de buscar em seu bolso a pedra protetora, para afastar as criaturas e poder arrastar seu colega para um esconderijo, caso achasse um ali perto. Mas nada encontrou em seu bolso, nem em nenhum outro que procurasse, tendo o corpo todo consumido por uma inegável sensação de prostração. Sua mente, num lampejo , vasculhou as lembranças até o único lugar possível de se encontrar sua pedra perdida: a fenda na neve. Ironia do destino.

Antes não tivesse descido para resgatar o amigo! Ou o fizesse com mais cuidado e presteza. Suas forças o abandonaram de tal forma que mal conseguiu esboçar reação com a tocha e, quando se lembrou do outro cristal no bolso do homem ferido, os fantasmas já estavam sobre ele.

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sábado, 3 de outubro de 2009

Noites no gelo – Parte 2: Buscando ajuda


Todo viajante que passasse pela Muralha Branca levando um cristal, o fazia em algum bolso de fácil acesso, permanecendo, assim, preparado para um ataque imediato. Na verdade, o cristal para se espantar Sombras não era tão eficiente como se propunha. É a mais pura verdade que essa pedra peculiar, originária das regiões montanhosas do sudeste, tinha a singular e misteriosa propriedade de causar medo nos Vultos.
Não se sabe o por quê de tal reação. Sabe-se, contudo, que o efeito é temporário e só na primeira vez a criatura o sofre por completo. Apenas muito tempo depois, talvez dias, é que a Sombra da Neve voltará a temer uma pedra daquelas novamente. A intenção ao usar tal objeto é a de afastar o inimigo e ter tempo para escapar, indo o mais longe que puder. Ficando parado no mesmo lugar, uma pessoa se torna presa fácil das Sombras, justamente por ela saber onde procurar assim que expirar o efeito do afastamento.
O velho avançava além do que o seu físico jamais ousou parecer possível, cortando a neve por onde haviam passado há pouco, desaparecendo na imensidão branca que cobria o caminho entre as montanhas. Perto da fenda, o frio e o medo se engajavam numa luta pelo controle da consciência do homem que montava guarda junto ao amigo. Voltou nevar um pouco.
Transpondo a passos largos o gélido tapete branco, o velho praticamente jogava seu corpo para frente, devido ao desespero de alcançar o destino o quanto antes. Temia mais pela vida dos dois que ficaram do que pela sua própria. Sentia algum remorso por ter proposto ao mais novo ficar e guardar o lugar, pois no fundo sabia que um ato de verdadeira coragem seria o de se oferecer para ficar e encarar o perigo enquanto o outro saísse atrás de socorro.
Covarde. Covarde. A palavra ribombava dentro de seu mais profundo pensamento. Covarde. Abandonar um jovem sem experiência como se fosse um sacrifício a criaturas abomináveis. Entretanto, algo como uma sensação de alívio o preenchia por ter saído de lá. E tal sensação subjugava sua auto-condenação, pois, antes um covarde vivo do que um mártir, pensava ele. Enquanto se trancava contra pensamentos vexatórios e torturantes, andava tão rápido e desengonçado a ponto de suas botas se encherem de neve, que rapidamente derretiam e molhavam seus pés, diminuindo ainda mais a temperatura do corpo, um descuido grave que podia ter seu preço.
Para se andar na neve com segurança e eficiência, os homens tomavam alguns cuidados com os pés. Primeiro, devia-se cobrir os pés com meias grossas, tiras de grosso tecido e enfiar as barras da calça dentro das botas para evitar molhá-las. E, fora da bota, era necessário amarrar panos nas pontas e na sola, para que houvesse aderência à neve, agilizando os passos. Parecia claro que nenhuma dessas precauções ajudava muito o velho esbaforido, que continuava depressa, sabendo que as vidas de seus amigos dependiam dele conseguir ajuda o quanto antes.
Arfante e cansado, o pobre velho só pensava em como encontraria os companheiros de viagem. Vivos, ou mortos e ressecados pelo dreno de vida dos Vultos? Sabia que não era capaz de voltar com ajuda antes da noite seguinte. Se os jovens sobrevivessem à noite fria e perigosa, talvez pudessem... Não! Era praticamente impossível. Por que diabos foi abandoná-los? Mas que chance teriam eles, os três ficando lá? Quem sabe pudesse ter convencido o mais novo a ir embora com ele? Deixou lá o novato, exalando medo pelos poros. Tantos pensamentos povoavam a cabeça do velho que o distraiam, de um modo grosseiro, do cansaço das pernas e do corpo.
Com o raiar de um novo dia, aquele esgotado homem desesperado avistou fumaça deitando ao longe, através dos morros e das árvores nuas, repletas de neve, que ali já se faziam presentes em alguns pontos. Era provável que chegasse à estalagem ao meio-dia.
No vasto nada de montanhas brancas, a fogueira improvisada, suspensa sobre o tronco na estrada para se manter afastada da neve, oferecia o calor tão bem recebido pelo jovem guardião. Era dia, mas não havia perigo em se acender fogueiras a qualquer hora, e, mesmo à noite, era importante viajar com tochas acesas. Esses tais Vultos enxergavam perfeitamente no escuro e, sem uma luz com que se guiar, os viajantes ficariam em desvantagem imensa. Bem aquecido e deitado sobre o tronco, o jovem se protegia do frio como conseguia, se cobrindo e recebendo o calor do fogo, sem pensar em como seu amigo sofria no fundo do fosso na neve. Dentro de poucas horas, quando esse temor lhe passou pela cabeça, correu para ver como estava seu parceiro, mas não o encontrou em boa situação.
— Ei! — gritou o rapaz.
Mas a resposta demorou.
— Eu... — respondeu o homem no fundo da rachadura.
— Como você está se sentindo? — perguntou o jovem.
— Não consigo sentir minhas pernas... cabeça dói... dedos estão roxos... acho que vou morrer antes da ajuda chegar. Não sinto calor em nenhuma parte do... meu corpo.
De repente, um plano se formou no coração do novato aflito. Um plano arriscado e que possivelmente lhe custaria a vida, em caso de falha, mas ele devia tentar, não podia deixar o amigo morrer ali. Foi até sua mochila e a do velho, encostadas ao tronco, onde sabia que encontraria um machadinho, que eles usavam para rachar lenha nas viagens. Dirigiu-se até a fogueira, onde tomou um gole do chá que tinha deixado esquentando e voltou para a fenda.
Sem dizer palavra ao seu colega, amarrou a outra extremidade da corda à cintura, prendeu o machadinho na cinta e iniciou sua descida até o local onde seu amigo permanecia preso. A corda amarrada em sua cintura era um recurso que ele concebeu para não cair no abismo além o alcance da visão. Se caísse ali, jamais voltaria a ser encontrado, vivo ou morto. Só isso já lhe congelava a espinha ainda mais do que o vento frio. Agarrando firmemente a corda presa na arvore, foi descendo devagar, se apoiando com os pés onde podia e escorregando pela corda quando não encontrava apoio.
Depois de uns bons minutos, chegou à pedra que prendia o companheiro pela barriga. Apoiou-se nela e tocou a face do homem, para confirmar alguma reação e obteve resposta. O homem abriu o olho, mas, com a mente perturbada, não compreendeu nada daquilo e voltou a desmaiar. Até ali, o plano parecia estar funcionando corretamente e o jovem até se repreendeu por não ter tido aquela ideia antes. Empunhando o machadinho, começou a bater na pedra, para arrebentar a ponta que prendia seu companheiro. Como um escultor talhando uma rocha, desferia os golpes com cuidado, com as costas do machadinho, para não desmoronar alguma parede da fenda sobre eles. Aí sim estaria tudo perdido, para ele e o amigo.
Passado um longo período de tempo martelando, que mais dava a impressão de ter sido uma tarde toda, o rapaz conseguiu romper a rocha e libertar seu amigo, agora suspenso na mesma altura, graças à corda presa ao tronco. Não havia tempo, entretanto, para perder com qualquer coisa. O homem corria o risco de se desprender da corda e cair para a morte, a visitante que já lhe batia à porta.
Subindo rapidamente, sem voltar a olhar para baixo, com o corpo tremendo e as mãos frias de tanto martelar, o novato, quando chegou ao topo, percebeu o dia ainda claro e começou a puxar seu amigo lentamente, para que não o despertasse e ocasionasse movimentos bruscos. Enquanto puxava, pensou em como seu parceiro de viagem era resistente ao sobreviver por tanto tempo dentro da fenda fria e úmida. Imaginou que ele próprio não aguentaria por tanto tempo lá no fundo, preso à pedra, sob o manto de gelo levemente azulado ameaçando cair sobre sua cabeça. Sua respiração doía-lhe as narinas, e as mãos e os pés davam a impressão de não responderem mais. Mesmo o amigo tendo se envolvido em cobertores, ainda era difícil acreditar naquela vida que era salva.
Enfim, puxou o corpo frio e inerte para fora do buraco e o arrastou até a fogueira, deitando-o sobre o enorme tronco, onde ele próprio dormia horas atrás. Tratou de descansar, enquanto forçava o outro a beber um pouco de chá para aquecer o interior do corpo. Precisariam de ânimo para escolher o que fazer a seguir.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Noites no gelo - Parte 1: Incidente


— Você nem faz ideia se vamos conseguir comer essa noite, quanto mais o quê. — comentou um deles.
— Eu caço qualquer coisa, sou bom de caça, idiota! — respondeu o outro, o novato.
O mais velho dos três, sabiamente, decidiu intervir na disputa juvenil dos seus companheiros de viagem, que vinha se estendendo demasiadamente.
— Parem de brigar, pelos deuses! Concentrem suas atenções nas encostas das montanhas. Eles podem aparecer a qualquer momento e, como não tem lua essa noite, fica mais difícil enxergar um se aproximando.
O homem e o jovem se calaram, entreolhando-se. Suas tochas quase se apagavam expostas ao inclemente poder da ventania. Os conselhos do velho não eram à toa.
Esses viajantes noturnos cobriam a passos largos a região, caminhando o máximo que podiam à noite e deixando para repousar durante o dia, e ainda assim revezando o sono. O motivo para tanta precaução era as criaturas sombrias e fantasmagóricas denominadas Sombras da Neve, ou Vultos da Neve, segundo relatos. Seres notívagos, esses espectros em forma de sombra, com dois reluzentes olhos vermelhos, caçam e transformam suas vítimas em um dos seus, ao drenar suas essências de vida. Na estação do frio, como era aquela, a neve cobria quase todo o caminho entre as montanhas. No verão, apenas parte das montanhas preservava o gelo mais resistente ao calor, fazendo os Vultos terem receio de se aventurar fora da área nevada.
As montanhas conhecidas como Muralha Branca são a fronteira entre o norte e o sul de Anerás e para atravessá-las é preciso uma certa dose de coragem, ou talvez insanidade. Entretanto, é também uma região cortada por rotas de mercadores e, se um viajante permanecer nas rotas antigas, as mais usadas, suas chances de uma travessia com sucesso serão maiores. Essas rotas foram traçadas durante os séculos, através de trilhas e estradas onde os ataques das criaturas eram menos frequentes. Mas, movimento atrai olhares.
Com pouca neve, os seres sombrios eram obrigados a caçar apenas quando tinham fome de almas, mas com a neve cobrindo tudo, eles se deliciavam a contento, atacando sem receio quaisquer pobres inexperientes viajando pelas trilhas no gelo.
Apesar de estarem na estação do frio, não nevava na Muralha há dois dias. A noite corria pela metade, quando um incidente, naquele tapete branco traiçoeiro, interrompeu a viagem dos passantes. Ao encontrar um enorme tronco velho impedindo o caminho da estrada, resolveram contorná-lo para seguir adiante. Como à esquerda do grupo, bem ao lado da trilha, uma escarpa se projetava em abismo de maneira muito íngreme, optaram por subir uns poucos metros o sopé da montanha à direita, onde notavam menos inclinação no terreno sem risco de cair.
No meio do caminho, porém, uma fenda na neve se abriu debaixo dos pés de um dos rapazes, fazendo-o cair e ficar preso, com a cintura enroscada a uma rachadura horizontal entre o gelo e a rocha, onde se via o buraco além, seguindo mundo adentro. Nenhum dos seus companheiros puderam ou tiveram tempo de reagir, a queda aconteceu rápido demais. E o buraco, bastante profundo, desaparecendo na escuridão sob os pés da vítima, era de causar medo e pânico. O desespero tomou conta dos colegas. Geralmente, uma fenda no gelo não dá uma segunda chance para vítimas de quedas, são buracos traiçoeiros sob um tênue manto de neve que, ao menor sinal de peso ou abalo, se mostram, tragando para suas entranhas as vítimas desavisadas. Portanto, quando uma chance de escapar surge, não se pode negá-la.
— Temos que jogar a corda! — gritou o velho, tentando começar a pensar.
O outro rapaz, mais jovem que o amigo no fundo da fenda, além de viajante novato, aparentava não ter os nervos no lugar. Temia pelas aparições que rondavam as montanhas. E agora à noite ainda! Eram alvos fáceis ali parados. Arrancou a corda presa à mochila e jogou-a para o velho, que imediatamente começou seu laço meio improvisado, uma técnica primitiva que conhecia e funcionava muito bem.
— Agora, nós vamos puxá-lo pra cima, entendeu? — o velho atacou, forçando o mais novo a se concentrar.
Rompendo as fronteiras do medo, eles se posicionaram na beirada da fenda e desceram a corda para o amigo, instruindo-o a prendê-la sob os braços e segurar firme. Puxaram uma vez, mas sem resultado; puxaram novamente, e, novamente, não obtiveram êxito. O velho pediu para tentarem com mais força e foi o que fizeram, mas o amigo no fundo da fenda gritou de dor.
— Estou ferido, não puxem! — gritou ele. — Acho que a pedra perfurou minha barriga e... aaaaaaaaaahhh... se vocês puxarem vai entrar mais ainda na carne.
Só o mais novo deles dava a impressão de não estar pensando numa solução, amedrontado como se apresentava aos olhos do velho. Mas foi o primeiro a romper a agitação do vento gelado assoviando em seus ouvidos e gritou ao velho:
— Vamos buscar ajuda!
— O quê? — O velho ficou intrigado. — Como?
— Há duas léguas passamos por um posto de repouso fora das montanhas, naquela mata de árvores secas, podem os ajudar.
— Duas léguas não são duas horas de caminhada na neve! E nosso companheiro vai ficar aqui, esperando ser encontrado por uma Sombra?
— Ele tem um cristal, vai ficar protegido.
— É uma solução, mas muito arriscada.
— Eu sei, senhor, mas...
— Mas tem que ser feito — o velho completou, sabendo que não tinha outro jeito de resolver o problema.
Pensaram por um tempo antes de agir e o homem preso na fenda, que tinha ouvido partes da discussão em voz alta dos colegas, gritou:
— Se alguém vai buscar ajuda, já é hora! Não dá pra ficar aqui esperando, com a barriga furada congelando por dentro, esperando pra morrer!
O velho então teve uma ideia e começou a colocá-la em prática. Segurando a corda de maneira firme, pediu ao jovem para amarrá-la a um galho do tronco caído na estrada. Como a corda tinha uns 30 metros, o intento funcionou e até sobrou mais corda do que o necessário para a outra parte do plano. Arrancou duas grossas cobertas de lã, que usavam nas viagens e desceu-as pela outra ponta da corda, até o seu amigo preso. Mandou que enrolasse uma em seu tronco, o melhor que conseguisse, e se cobrisse com a outra. Feito isso, voltou-se para seu jovem companheiro, com instruções a dar.
— Eu vou, você fica.
O rapaz, apavorado com a possibilidade de ficar ali sozinho, parado, em pleno território de Sombras da Neve, estremeceu. Mas num ímpeto de coragem, chamou a responsabilidade para si próprio e consentiu. Antes de partir, o velho ainda falou ao amigo:
— Vocês têm o cristal, vão ficar bem — comentou ele, aludindo à frase dita antes pelo rapaz.
Instantes depois, o homem observava o velho desaparecendo na estrada.
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Ninguém me toca

Era noite. Um homem baixo entrou na estalagem. Ele tinha, preso às costas, um machado de combate; vestia uma armadura surrada de couro e, presa à cintura, vinha uma bolsa de moedas bem cheia. O forasteiro chegou em busca de cama confortável e comida. Velas insistiam, de forma pouco eficiente, no trabalho de iluminar o ambiente tomado pela noite. O lugar começava a se tornar mais e mais frequentado.

Todo tipo de pessoa ia se divertir na taverna após trabalhar em um dia quente como aquele. O forasteiro procurou um canto onde pudesse ficar sossegado, apreciando uma boa cerveja e aguardando sua comida chegar. Olhava o movimento de pessoas, gente simplória em geral, tentando dar algum sentido maior à sua existência do que trabalhar sem descanso nas terras de algum nobre ou vendendo mercadorias compradas em outros lugares. Em menos de uma hora o lugar se via cheio de artesãos, caçadores, agricultores, vadias e mercenários, como ele próprio o era.

Quando o prato chegou, o homem pequeno, mas largo e bastante forte, pôs-se a comer seu pedaço de coxa assada, que havia comprado junto com o vinho. A comida tinha demorado a sair, pois, por se tratar de um dos primeiros a chegar, encontrou o estalajadeiro abrindo o lugar e sua esposa acendendo as chamas do forno. Mas agora comia com gosto, como se aquela peça de carne representasse o topo do mundo.

Bastante satisfeito com o desjejum e a cerveja, servida em uma caneca gorda, cheia até a borda, o mercenário optou por fica ali, olhando a gente dos vilarejos circundantes se meter com bebidas e seios de mulheres a noite toda. Algumas situações soavam bem hilárias ao seu ver e, com o tanto de bebida que ingeriu, até o cansaço da viagem tinha ficado um pouco de lado. Teve dança, gritaria e muita gente caindo de bêbado.

A madrugada ia alta quando uns poucos homens restaram na estalagem. Além do forasteiro mercenário, outros oito sujeitos com ares de deprimidos continuavam a beber. Mesmo o ambiente refletia um pouco essa névoa deprimente que envolvia a mente dos últimos frequentadores.

O viajante atarracado se dirigiu ao balcão da estalagem, para pagar sua última bebida e subir as escadas rumo ao descanso em um quarto bem quente e confortável. Mas, antes de tocar em sua bolsa de moedas, ouviu o ruído deslizante de uma lâmina cortando tecido. Virando-se o mais rápido que pôde, conseguiu ver um estranho se afastando de costas, como se nada tivesse acontecido.

Homem de poucas palavras, o viajante apenas arrancou seu machado das costas e o cravou sobre uma mesa, causando um estrondo no ambiente esfumaçado da estalagem. A impressão que tiveram os observadores foi a de que a arma literalmente cortou o ar denso da fumaça das dezenas de cachimbos acesos naquela única noite.

Parando no meio do caminho, o homem alto que tentava se afastar, querendo se fazer de despercebido, virou-se e olhou para a mesa rachada e o machado enterrado em seu centro. Aquilo significava “devolve o que é meu”, e ele entendeu muito bem; todavia, ele não era o único interessado na recheada bolsa de moedas do mercenário.

Os oito que ali se amontoavam, dissimuladamente, faziam parte de um bando de ladrões, no momento, determinados a roubar o mercenário. E quem sabe o que mais planejavam naquela noite?. Portanto, quando o mercenário disse “vou bater em você sem meu machado”, viu outros quatro homens se levantar e se aproximar do primeiro ladrão, para demonstrar que tinham o mesmo interesse. Ainda que os outros três não se levantassem, o mercenário soube que aquela era a quadrilha toda. Numa situação como a que se encontrava, ele pensou estar no direito de dizer outra frase para os malfeitores. E tudo que saiu de sua boca foi:

— Vou bater em vocês todos sem meu machado.

O grandalhão do grupo dos ladrões logo se adiantou e mostrou-se disposto a ser o primeiro e, porventura, o único a colocar as mãos naquele baixinho. Mas o que ele não sabia era que o baixinho em questão não era qualquer desocupado que viajava pelas estradas. O acompanhava uma longa história em batalhas, tão reais quanto a situação que se apresentava no momento, mas muito mais perigosas.

Um vento frio atravessou as janelas e tomou conta do ambiente. O primeiro golpe contra o baixinho foi tentado, cortando o ar sem maiores efeitos. O estalajadeiro permaneceu acuado em um canto, agarrado a uma faca, enquanto a pancadaria progredia de maneira impetuosa. O grandalhão tombou desmaiado, com um golpe certeiro do mercenário em sua nuca. Os oponentes seguintes foram os quatro outros distintos cavalheiros em pé que assistiam, descrentes, à derrota do amigo: o sujeito que havia surrupiado a bolsa de moedas e os três companheiros que dividiam o reduzido centro da estalagem com ele.

Mais uma vez a violência deu continuidade noite adentro. Sem tocar em seu machado, o homem pequeno, derrubou os três primeiros com certa facilidade. O primeiro conseguiu dar uns socos certeiros na cara do mercenário, mas encontrou um rosto rígido e resistente como pedra diante de seus punhos. O mercenário, agarrando os dedos do homem, virou-os para trás, quebrando as juntas e, em seguida ao urro de dor da sua vítima, socou-a repetidas vezes a cara, até que desmaiasse.

Aproveitando o embalo dos golpes, viu outro ladrão se aproximar com rapidez e guarda baixa. Com um soco cruzado do punho esquerdo, jogou o ladrão para o lado, sobre uma mesa que acabou se quebrando com o impacto. Nenhum deles acreditava encontrar tamanha força em um homem pequeno, mas não recuaram diante das baixas na linha de frente. Os outros dois que permaneciam em pé, ameaçavam o mercenário com uma faca e uma garrafa quebrada, sem, no entanto, tirar do rosto do homem sua expressão de determinação em levar a luta adiante. Ele estava mesmo era gostando! Enquanto espancava aquele bando de ladrões, o homem pequeno gritava “ninguém me toca, ninguém me toca” enfurecido e repetidas vezes.

Desviando do golpe de uma garrafa em cacos, fatal na mão do homem certo, o mercenário agarrou o braço do ladrão e dobrou-o para trás, cravando a garrafa quebrada na barriga do outro oponente que vinha com a adaga. Não acreditando na situação, o ladrão ferido caiu para trás e se arrastou até o canto da parede, tentando estancar o sangramento. O indivíduo com o braço imobilizado viu suas pernas bambearem ante a facilidade com que era derrotado por um homem tão pequeno. Puxando a garrafa de fundo quebrado da mão imobilizada do ladrão, o baixinho estocou-a com força na palma da mão presa, tornando-a inútil. Mais um grito de dor ecoou pelo ambiente esfumaçado.

Alguns hóspedes mais corajosos saíam dos seus quartos para assistir à batalha que se desenvolvia no salão da estalagem. A esposa do estalajadeiro se escondeu sob o balcão e não quis saber de assistir, e apenas seu marido, atônito, presenciava a cena.

Com todos os oponentes do momento derrotados, o mercenário puxou seu machado da mesa e, apesar da expectativa de todos, aguardando o uso da bela arma, ela foi colocada de volta nas costas. Olhando para os três ladrões restantes nas mesas, o mercenário se viu novamente obrigado a dizer algo.

— Mais algum de vocês? — disse finalmente.

Os três aproveitadores covardes apenas ajudaram seus companheiros de quadrilha a se levantar e sair, outros saíam se arrastando, gritando ameaças de retornar. O mercenário parou diante da porta da estalagem, antes que os dois últimos ladrões saíssem, um carregando o outro.

— Minha grana! — pediu ele, estendendo a mão.

O ladrão ferido, devolvendo a sacola de dinheiro, soltou um cuspe no chão, perto dos pés do mercenário. Voltando ao balcão e deixando os dois irem embora, o viajante retirou da sacola uma moeda de prata e deu ao estalajadeiro.

— Com que propósito me dá isso?

— Pelo prejuízo — respondeu o viajante.

— Tome de volta — disse o estalajadeiro, devolvendo a moeda. — Acaba de salvar minha vida. Quem imagina o que aquele bando faria aqui dentro?

O forasteiro não aceitou a devolução da moeda. Acendeu um cachimbo e subiu para seu aposento, a fim de descansar. No dia seguinte acordaria com uma mancha roxa ao lado da cara e detestava quando isso acontecia, mas culpava a si mesmo pelo descuido durante a briga. Talvez fosse somente um caso isolado, talvez estivesse envelhecendo e ficando mais lento. Talvez. O importante agora era dormir, mesmo com a briga tendo lhe tirado um pouco do efeito do álcool. A estalagem esfumaçada ficou para trás, com aquela bagunça toda para arrumar. A porta do recinto foi trancada assim que ele subiu. O quarto acolheu o homem pequeno como a um herói, com conforto e privacidade. A madrugada caminhava para seu fim.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Labirinto


Trevas. Era tudo que se encontrava ao entrar na famosa masmorra de Narca. Era famosa por estar ali mesmo antes da cidade existir e pelo intrincado labirinto que formava, com seus vários andares e salões. As antigas administrações de Narca aproveitaram ao máximo essa rede de túneis e salas, abrigando ali os delituosos da cidade. Qualquer crime, no passado era punido jogando-se o criminoso na masmorra. Onde, com o tempo, geralmente morria adoecido. Quanto mais grave fosse um crime, mais para dentro o sujeito era trancado.
Para se ter uma idéia do tamanho da masmorra, apenas o primeiro piso era usado para abrigar criminosos. Esse espaço era dividido em setores onde guardas e carcereiros faziam revezamento na vigilância. O primeiro piso também era destinado à administração da carceragem, um juizado para sentença de delitos e uma biblioteca de arquivamento de casos. Quando muito, era ocupado um terço da intrincada rede de corredores e salas do andar, transformadas em celas. O segundo piso e o terceiro, abaixo da carceragem, eram completamente abandonados e, pelas especulações, acreditava-se que nem as autoridades de Narca sabiam precisar a extensão de cada um. Corredores e salões intermináveis, úmidos e mergulhados em trevas contínuas pareciam ser capazes de abranger duas Narcas somente no segundo piso. Estimava-se levar cerca de vinte dias para percorrer o piso todo, seus quartos salões e corredores. Isso obedecendo a um ritmo razoável de caminhada.
No passado uma expedição andou mapeando o terceiro piso, mas, como muitos homens ficavam doentes com poucas horas de permanência no andar, a missão foi cancelada. Apenas algumas galerias foram registradas nos documentos oficiais. É um nível totalmente desconhecido da colossal masmorra.
A entrada do famoso labirinto era guarnecida de reforçados portões de aço, seguido de um amplo salão, onde funcionou a desativada ala de espera para triagem de criminosos. Toda a construção dava a impressão de ser milimetricamente planejada para resistir ao tempo e ao homem. Sua estrutura de rocha podia suportar os séculos vindouros sem o menor esforço. Com que propósito tamanha estrutura subterrânea fora construída? E por quem? Um enigma sem solução?
O complexo de Narca era sujo e úmido, um campo propício à proliferação de doenças. Para piorar a situação, era prática comum entre os soldados soltar ratos, aranhas e outros bichos que causavam males na população carcerária. Bichos que os próprios soldados capturavam em armadilhas espalhadas pelas redondezas ou em suas casas. Essa prática desumana era comum entre a guarda da masmorra. Houve um caso polêmico em que toda uma comunidade carcerária, junto com parte do efetivo militar, foi dizimada pela peste dos ratos e, sob ordens do magistrado-maior de Narca, as masmorras foram postas em quarentena. Mas onde abrigar os criminosos e delinqüentes diariamente capturados pela milícia local? A solução encontrada foi construir um novo calabouço, numa região afastada da cidade. Uma construção feita utilizando a mão de obra dos próprios criminosos, obrigados a trabalhar para pagar por infrações mais leves. Geralmente crimes pequenos, como roubos, golpes e brigas com facas em tavernas. Crimes graves eram punidos com morte ou encarceramento perpétuo, dependendo da sentença. Não se pode, porém, pensar que a cidade não tenha se expandido e chegado até o local onde foi escavado e construído o novo complexo de celas.
Com a adoção da nova região carcerária, as antigas masmorras foram definitivamente abandonadas, talvez para o próprio bem da cidade, que agora suspeitava que lá habitasse uma criatura das trevas, cujo hábito era o de caçar homens e mulheres sadios e se alimentar de seu sangue. O boato tinha fundamento, já que corpos foram encontrados, incontáveis vezes, às portas da masmorra, totalmente sem sangue. Quantos outros cadáveres não deviam estar apodrecendo lá dentro?
Após uma infrutífera reunião com o rei de Anerás, o magistrado da cidade ordenou que explodissem a entrada principal do complexo de Narca. Suspeitava-se, contudo, de haver outros acessos ao complexo de infinitos corredores, caso o contrário, como explicar que ainda ocorriam os casos de corpos totalmente sem sangue que apareciam da noite para o dia?
Um mistério a ser desvendado. Mas quem teria coragem de vasculhar as masmorras, já que todos alegavam que a morte passeava pelos seus corredores? Seria uma nova doença, capaz de secar o sangue dos homens? Ou a morte vinha pelas mãos de um monstro sugador de sangue? Será que os antigos construtores da masmorra não encontraram em suas escavações algo além de sua compreensão, e que agora teria despertado novamente?
A resposta reside dentro do labirinto nefasto. Quem se habilita?
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domingo, 17 de agosto de 2008

A herança de Arondon


Meu nome é Arondon. Venho de uma linhagem de guerreiros bárbaros. Sou descendente dos fundadores de Sales, a cidade a sudeste da Muralha Branca. Dizem as lendas antigas que não só Anerás, mas todo o continente já foi inundado por uma grande onda vinda do Mar Oceano. Dizem que essa grande onda varreu todas as civilizações aqui existentes deixando um número pequeno de sobreviventes nas regiões mais altas. Esses povos, após as águas baixarem, desceram para as ruínas das antigas cidades a fim de salvar, ou pilhar, o que restou do desastre.
Essa onda, dizem, foi por causa do fogo que veio do céu e caiu no grande Mar Oceano há mais ou menos dois mil e oitocentos anos. Os astrônomos dão a esse fogo do céu o estranho nome de meteoro. Por isso nós chamamos nossa era atual de Era do Meteoro. O povo supersticioso diz que essa história se passou graças à insatisfação dos deuses com a conduta dos homens no mundo, mas eu imagino que o motivo não tenha sido tão divino.
Desde então, a região foi povoada novamente, e continua sendo. Sales foi a contribuição de meus ancestrais para a nova era. Nosso povo, sempre nômade e guerreiro, após o acontecimento resolveu se apossar da região e estabelecer um território para as famílias do primeiro clã. Outros clãs vieram depois se instalar, formando uma miscigenação que hoje caracteriza nossa gente. A região prosperou, graças à pesca marítima e à caça do cervo. Podemos dizer, na verdade, que somos agora os nômades do mar, já que o espírito errante do nosso povo não descansou e muitos homens foram para o mar, descobrir e explorar. Os salesianos são pioneiros na navegação e na pesca, além do comércio com outros reinos abaixo de Anerás.
Até agora descrevi os passos de minhas origens, mas o que importa mesmo é a lenda que cerca o surgimento do nosso povo. Segundo contam os sábios, em uma história oral que vem sendo transmitida para todas as gerações, os primeiros ancestrais nômades, vestidos em peles de animais e armados apenas com espadas e lanças, enfrentaram uma força poderosa para poderem se firmar no território onde hoje é a cidade de Sales. Diz a lenda que monstros ferozes e criaturas das trevas guerrearam sob o domínio de um demônio, interessado na região, portadora de grande fonte de riqueza. Durante muitos anos, após a derrota do inimigo do reino dos mortos, meu povo continuou treinando homens e mulheres para o dia em que ele retornaria, e eu, um descendente direto do primeiro clã a se instalar em Sales, detenho a espada que, segundo a tradição oral, transpassou o infeliz demônio e o mandou de volta para seu criador.
Isso significa que sou, no momento, o responsável direto pela segurança da nossa cidade. Meu treinamento me foi passado desde o tempo de meu avô, e o conhecimento sobre a espada também, além de todo o conhecimento possível que puderam guardar sobre o Inimigo até hoje.
Nunca me ofereci para guardar as muralhas da cidade, nem para me tornar general de exército, não por falta de oferta, mas porque decidi me resguardar para o momento que se aproxima. É de crucial importância que eu esteja preparado. Afinal, como no princípio, meu ancestral, que cravou a espada no maldito demônio, nos ensinou a prever o ressurgimento do Inimigo, o deus Bhaal, e seus tentáculos. “Atenção ao mundo” é o lema que estampa a insígnia de nosso clã. E é por isso que hoje sei que essa divindade está voltando e trazendo consigo sua horda de infelizes serviçais. E meu clã estará preparado até os ossos para o esperado momento, afinal, não posso decepcionar meus ancestrais e pelo que eles morreram!
Meu nome é Arondon e minha hora de morte está chegando.
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